terça-feira, 13 de janeiro de 2026

NÃO FOI LEI ROUANET: ENTENDA COMO “O AGENTE SECRETO” FOI FINANCIADO E POR QUE A CONFUSÃO SE ESPALHOU

O triunfo do filme “O Agente Secreto” no Globo de Ouro 2026 — com vitória como Melhor Filme em Língua Não Inglesa e o prêmio de Melhor Ator para Wagner Moura — levou o cinema brasileiro ao centro do debate internacional. Mas, junto com os aplausos, veio também uma velha polêmica que sempre reaparece nas redes sociais: afinal, o longa foi feito com dinheiro público? Usou Lei Rouanet?

A resposta curta é direta e objetiva: teve dinheiro público, sim. Lei Rouanet, não.
E a resposta longa ajuda a desmontar uma das maiores confusões populares quando o assunto é financiamento cultural no Brasil.

LEI ROUANET NÃO FINANCIA FILMES — E NUNCA FINANCIOU

Apesar do que muitos dizem nas redes, nenhum longa-metragem brasileiro pode ser financiado pela Lei Rouanet. Isso não é novidade, nem exceção. É regra. A Rouanet funciona por meio de renúncia fiscal e é voltada para outras áreas culturais, como teatro, música e exposições — não para cinema.

Ou seja, independentemente de governo, ideologia ou temática do filme, a Lei Rouanet simplesmente não entra na conta do cinema nacional.

ENTÃO, DE ONDE VEIO O DINHEIRO?

No caso de O Agente Secreto, cerca de R$ 7,5 milhões vieram do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ligado à Ancine, por meio de um edital aprovado em fevereiro de 2024.

O FSA é um mecanismo específico para o setor audiovisual. Ele financia filmes, séries e produções para TV e streaming. Diferente do que muitos imaginam, não envolve empresa abatendo imposto de renda, nem “dinheiro dado de graça”.

O fundo é abastecido por taxas cobradas do próprio mercado audiovisual — como produtoras, emissoras e plataformas — e esse dinheiro retorna ao setor em forma de investimento.

QUANTO CUSTOU, DE FATO, “O AGENTE SECRETO”?

O orçamento total do filme foi de R$ 27.165.775, valor dividido entre várias fontes, num modelo comum ao cinema autoral e às coproduções internacionais.

A conta ficou assim:

  • R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (Brasil)

  • R$ 5,5 milhões da iniciativa privada nacional

  • Cerca de R$ 14 milhões vindos de fundos públicos da França, Alemanha e Holanda

Ou seja, a maior parte do investimento veio do exterior, algo absolutamente normal em produções que circulam por festivais e premiações internacionais.

Vale destacar ainda que o filme poderia ter usado mais R$ 4 milhões do FSA para distribuição, mas optou por não acessar esse recurso.

DINHEIRO PÚBLICO, SIM — MAS COM REGRAS E RETORNO AO SETOR

O ponto central é simples:
👉 não houve Lei Rouanet
👉 não houve renúncia fiscal para empresas
👉 não houve “imposto perdoado”

O que houve foi investimento do próprio mercado audiovisual, gerido pelo Estado, com critérios técnicos e edital público — modelo adotado em diversos países que valorizam sua indústria cultural.

UM FILME, UM TEMA E UM MARCO HISTÓRICO

Ambientado no Brasil dos anos 1970, O Agente Secreto acompanha um professor que se vê envolvido em uma rede de espionagem durante a ditadura militar. Mais do que um thriller político, o longa mergulha em temas como memória, silêncio e trauma histórico.

Ao receber o prêmio, Wagner Moura resumiu o espírito da obra:

“O ‘Agente Secreto’ é um filme sobre memória — ou a falta dela — e trauma geracional. Se o trauma pode passar de geração para geração, valores também podem.”

E completou, em português, emocionando o público brasileiro:

“Para todo mundo no Brasil assistindo isso agora: viva o Brasil! Viva a cultura brasileira!”

NO FIM DAS CONTAS

O sucesso de O Agente Secreto mostra que o cinema brasileiro pode competir no mais alto nível internacional — com transparência, regras claras e investimento estruturado.
A polêmica, mais uma vez, nasce menos dos números e mais da desinformação.

E os números, quando explicados com clareza, falam por si.

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