A resposta curta é direta e objetiva: teve dinheiro público, sim. Lei Rouanet, não.
E a resposta longa ajuda a desmontar uma das maiores confusões populares quando o assunto é financiamento cultural no Brasil.
LEI ROUANET NÃO FINANCIA FILMES — E NUNCA FINANCIOU
Apesar do que muitos dizem nas redes, nenhum longa-metragem brasileiro pode ser financiado pela Lei Rouanet. Isso não é novidade, nem exceção. É regra. A Rouanet funciona por meio de renúncia fiscal e é voltada para outras áreas culturais, como teatro, música e exposições — não para cinema.
Ou seja, independentemente de governo, ideologia ou temática do filme, a Lei Rouanet simplesmente não entra na conta do cinema nacional.
ENTÃO, DE ONDE VEIO O DINHEIRO?
No caso de O Agente Secreto, cerca de R$ 7,5 milhões vieram do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ligado à Ancine, por meio de um edital aprovado em fevereiro de 2024.
O FSA é um mecanismo específico para o setor audiovisual. Ele financia filmes, séries e produções para TV e streaming. Diferente do que muitos imaginam, não envolve empresa abatendo imposto de renda, nem “dinheiro dado de graça”.
O fundo é abastecido por taxas cobradas do próprio mercado audiovisual — como produtoras, emissoras e plataformas — e esse dinheiro retorna ao setor em forma de investimento.
QUANTO CUSTOU, DE FATO, “O AGENTE SECRETO”?
O orçamento total do filme foi de R$ 27.165.775, valor dividido entre várias fontes, num modelo comum ao cinema autoral e às coproduções internacionais.
A conta ficou assim:
R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (Brasil)
R$ 5,5 milhões da iniciativa privada nacional
Cerca de R$ 14 milhões vindos de fundos públicos da França, Alemanha e Holanda
Ou seja, a maior parte do investimento veio do exterior, algo absolutamente normal em produções que circulam por festivais e premiações internacionais.
Vale destacar ainda que o filme poderia ter usado mais R$ 4 milhões do FSA para distribuição, mas optou por não acessar esse recurso.
DINHEIRO PÚBLICO, SIM — MAS COM REGRAS E RETORNO AO SETOR
O ponto central é simples:
👉 não houve Lei Rouanet
👉 não houve renúncia fiscal para empresas
👉 não houve “imposto perdoado”
O que houve foi investimento do próprio mercado audiovisual, gerido pelo Estado, com critérios técnicos e edital público — modelo adotado em diversos países que valorizam sua indústria cultural.
UM FILME, UM TEMA E UM MARCO HISTÓRICO
Ambientado no Brasil dos anos 1970, O Agente Secreto acompanha um professor que se vê envolvido em uma rede de espionagem durante a ditadura militar. Mais do que um thriller político, o longa mergulha em temas como memória, silêncio e trauma histórico.
Ao receber o prêmio, Wagner Moura resumiu o espírito da obra:
“O ‘Agente Secreto’ é um filme sobre memória — ou a falta dela — e trauma geracional. Se o trauma pode passar de geração para geração, valores também podem.”
E completou, em português, emocionando o público brasileiro:
“Para todo mundo no Brasil assistindo isso agora: viva o Brasil! Viva a cultura brasileira!”
NO FIM DAS CONTAS
O sucesso de O Agente Secreto mostra que o cinema brasileiro pode competir no mais alto nível internacional — com transparência, regras claras e investimento estruturado.
A polêmica, mais uma vez, nasce menos dos números e mais da desinformação.
E os números, quando explicados com clareza, falam por si.
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