Geovani Oliveira
Não adianta inventar a roda. Discursos bonitos, planejamentos estratégicos e falas carregadas de pragmatismo podem até emocionar plateias e render boas manchetes, mas não produzem, por si só, os resultados necessários para sustentar um governo. A engrenagem do poder, por mais moderna que se tente moldar, continua sendo movida pela velha política. Não há gestão pública sem articulação, sem construção de pontes, sem o diálogo permanente com as forças que representam a sociedade. A teoria, quando aplicada de forma isolada, limita. Um governo composto apenas por técnicos pode até apresentar indicadores consistentes em planilhas, mas dificilmente conseguirá alcançar o coração da população. O povo não quer detalhes administrativos nem explicações sobre limitações orçamentárias. O que o povo deseja são resultados visíveis, concretos, palpáveis no cotidiano. É isso que define a percepção sobre o sucesso ou o fracasso de uma gestão.
Em Pernambuco, a realidade é ainda mais clara. Quem vive no interior sabe que a política é decisiva. Um prefeito político, que sabe dialogar, que conhece a linguagem popular, que transita entre aliados e adversários, tem dez vezes mais chances de derrotar um gestor que se limita ao campo técnico. Essa lógica é repetida eleição após eleição e segue sendo a essência da disputa. A governadora Raquel Lyra conduz um governo que, em vários aspectos, é bem avaliado. Há esforço administrativo, seriedade na condução das contas públicas e boas intenções no planejamento estratégico. No entanto, falta-lhe a política, o elo vital que conecta o Palácio às ruas. Enquanto isso, a oposição, organizada, feroz e experiente, não perde tempo. O PSB sabe como jogar o jogo político e, nesse campo, ainda leva larga vantagem.
Não adianta exibir o apoio de 150 prefeitos se esse apoio não reverbera diretamente no povo. Sem articulação política, essa rede não se transforma em votos, em militância, em convencimento. Ainda há tempo para reverter esse quadro, mas será preciso coragem. Raquel Lyra precisará reformar profundamente o seu governo. Isso significa, em termos práticos, abrir mão de 80% dos tecnocratas que hoje cercam a gestão. São pessoas sérias, corretas e decentes, mas que desconhecem a lógica da política. O exemplo mais emblemático está na Casa Civil: um secretário de perfil honesto, decente e de bem, mas sem experiência política. Deveria ser remanejado para uma área em que tivesse mais afinidade e poderia colaborar mais com o governo somando muito mais do que numa função que cabe a políticos. Técnicos em áreas políticas: Esse é um luxo que um governo em disputa pelo futuro não pode se dar.
A reforma não pode ser tímida. É preciso demitir todos os técnicos que ocupam funções estratégicas e substituí-los por políticos experientes, líderes que saibam o peso de um aperto de mão numa feira, que entendam o valor de uma reunião em comunidade, que falem a língua das massas. No segundo escalão, a exigência é ainda mais clara: cada região do estado precisa ser representada por alguém com raízes, com história e com trânsito local. A governadora Raquel Lyra tem diante de si um desafio estratégico. Seu governo pode ser bem avaliado em números, mas só terá sustentabilidade eleitoral se conseguir construir musculatura política. O PSB, com João Campos à frente, não vai jogar para perder. A máquina socialista já provou ter fôlego e sabe como se conectar com o povo.
Portanto, a única saída para Raquel Lyra é transformar o governo em um governo político. Não basta governar para as planilhas, é preciso governar para as ruas. Não basta falar em eficiência, é preciso falar em proximidade. Só assim, com cheiro de povo, com líderes regionais e municipais fortalecidos, será possível sonhar com a reeleição em 2026. Porque, no fim das contas, a máxima segue imbatível: não se governa sem política.
*Advogado, natural de Garanhuns, ex-prefeito de Itaquitinga na Mata Norte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário