domingo, 16 de novembro de 2025

REELEIÇÃO DE PASTOR EURICO SOB AMEAÇA: ASCENSÃO DE EDILSON TAVARES REACENDE DISPUTA NO SEGMENTO EVANGÉLICO

A disputa pelo voto evangélico em Pernambuco ganhou novos contornos com o avanço da pré-candidatura de Edilson Tavares, ex-prefeito de Toritama, que surge como uma ameaça concreta à reeleição do deputado federal Pastor Eurico (PL). A movimentação de Edilson tem sido acompanhada de perto por lideranças da Igreja Assembleia de Deus, especialmente porque ele consolidou uma aliança estratégica com o deputado estadual Adauto Santos (PP), figura também ligada à denominação e respeitada pelo pastor presidente Ailton José Alves.

Nos últimos meses, Edilson intensificou sua presença em eventos religiosos, aparecendo ao lado de nomes como Irmã Judite, Eduardo da Fonte, Emanuel Estanislau e do atual prefeito de Toritama, Sérgio Colin. A presença conjunta do grupo em um evento recente no Templo Central da Assembleia de Deus de Pernambuco chamou atenção pela demonstração de força política e religiosa, revelando um alinhamento que pode redesenhar a correlação de forças dentro da igreja — tradicional reduto eleitoral de Pastor Eurico.

A consolidação dessa articulação ocorre em um cenário desfavorável para Eurico, que vem apresentando desgaste acumulado nas urnas. Seus números têm caído a cada eleição, e a derrota eleitoral mais recente em seu entorno — o desempenho fraco de seu filho, Netinho Eurico, candidato a vereador do Recife — reforça o alerta. Com apenas 1.515 votos, Netinho ficou apenas na nona suplência do PL, mostrando que a influência política de Eurico parece não se traduzir mais com o mesmo vigor entre os eleitores da capital e do segmento evangélico.

Em meio às movimentações públicas e discretas que dão sustentação ao projeto político de Edilson Tavares, Pastor Eurico se apressou em reafirmar sua posição dentro da Igreja Assembleia de Deus. Em entrevista concedida nesta semana a uma rádio evangélica, ele reforçou que sua atuação política é fruto direto da confiança depositada pela denominação. “Eu fui lançado na política pela Igreja Assembleia de Deus. Sou membro da Assembleia e não faço parte de nenhum grupo político. Continuo leal à minha igreja, ao meu pastor presidente, aos meus companheiros pastores e aos princípios e valores que sempre nortearam o nosso trabalho”, afirmou.

A fala é vista como um recado tanto aos fiéis quanto às lideranças internas, já que o avanço de Tavares vem sendo interpretado como uma tentativa de reorganização da representação política da Assembleia de Deus no Congresso. Nos bastidores, observa-se que parte das lideranças do campo evangélico, antes alinhadas automaticamente a Eurico, passou a considerar a renovação como um caminho natural — especialmente diante do desgaste político acumulado e da dificuldade de expansão de sua base eleitoral.

Apesar disso, Eurico mantém um discurso de confiança. Ao comentar a possibilidade de perder espaços internos, ele respondeu de maneira enigmática e carregada de simbologia religiosa: “Em nenhum momento eu me sinto ameaçado, porque até Jesus já foi traído”. Para aliados mais próximos, a frase expõe o desconforto com a movimentação de outros nomes dentro da igreja, mas também revela a estratégia do deputado de se manter firme em uma narrativa de fidelidade e resistência.

Em outro momento da entrevista, Eurico deixou claro que pretende disputar as eleições mantendo as mesmas práticas que guiou seus mandatos anteriores. “Quem acompanha o nosso trabalho sabe que nunca abrimos mão desses princípios. Agora, chega a campanha aparece meio mundo de candidato e vai aparecer outros. Agora, olhe bem. Eu não pago voto, não compro blog e não vou usar o nome do meu pastor para me promover”, disparou. A declaração foi imediatamente interpretada como um recado direto, ainda que não nominal, aos adversários que vêm crescendo dentro do campo evangélico — especialmente Edilson Tavares.

O avanço de Edilson no eleitorado da Assembleia de Deus preocupa o entorno de Eurico porque rompe uma dinâmica estabelecida há duas décadas. Desde que chegou à Câmara dos Deputados, Eurico sempre contou com apoio maciço da igreja, que historicamente centralizava sua força em um único nome para Brasília. A ascensão de Edilson e sua proximidade com o pastor Ailton José Alves, porém, indicam que a unidade interna pode estar se fragmentando.

A estratégia de Edilson passa por ampliar sua imagem de gestor eficiente — característica consolidada em Toritama — e se apresentar como uma alternativa renovada para representar os interesses da denominação na Câmara. Já Adauto Santos, seu aliado direto, possui forte trânsito entre pastores e lideranças regionais, funcionando como ponte entre o projeto político e o núcleo da Assembleia de Deus.

Enquanto essas costuras avançam, fontes internas apontam que Eurico tenta reforçar sua base tradicional, intensificando visitas a congregações, ampliando agendas religiosas e buscando retomar espaços que antes lhe pertenciam de forma natural. No entanto, analistas que acompanham a política evangélica em Pernambuco destacam que esta eleição promete ser a mais imprevisível para o parlamentar.

A disputa aberta dentro da Assembleia de Deus expõe um cenário inédito: pela primeira vez, dois grupos de peso disputam diretamente o mesmo eleitorado, dividindo lideranças e criando zonas de tensão que podem se refletir nas urnas. Com isso, a reeleição de Pastor Eurico — antes tratada como praticamente certa — passa agora a depender de uma reconstrução profunda de sua influência, enquanto Edilson Tavares se firma como a maior ameaça já enfrentada por ele em quase duas décadas de vida pública.

O que se desenha é uma disputa que vai além de votos: envolve prestígio, herança política, espaço institucional e a representatividade oficial da Assembleia de Deus no cenário federal. E, pela primeira vez, o resultado está longe de ser previsível.

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