O INFERNO DIGITAL QUE JOÃO CAMPOS DOMINAVA AGORA COBRA SEU PREÇO
QUANDO O PALCO MUDA, O ROTEIRO TAMBÉM
João Campos construiu sua imagem política surfando como poucos na onda da comunicação digital. Jovem, carismático, habilidoso nas redes e dono de uma estética política afinada com o tempo da Internet, o prefeito do Recife transformou curtidas em capital político e vídeos em votos. Mas o mesmo ambiente que o consagrou começa, na entrada de 2026, a expor fragilidades que antes passavam despercebidas. O “inferno” das redes, que ele sempre soube usar contra adversários ou para se autopromover, agora se volta contra ele com força, organização e narrativa.
A seguir, os oito pontos centrais que explicam por que o jogo virou — e por que o ano eleitoral começou pesado para o prefeito que sonha com o Palácio do Campo das Princesas.
DO REI DO TIKTOK AO ALVO PERMANENTE
João Campos foi pioneiro em Pernambuco ao transformar redes sociais em ferramenta central de gestão e política. Em 2024, dançou, sorriu, viralizou e atropelou adversários, chegando à reeleição com quase 80% dos votos. O problema é que esse domínio criou escola. Hoje, ele não é mais o único “ás” da Internet — virou apenas o mais famoso entre vários outros que aprenderam a jogar o mesmo jogo, só que contra ele.
UMA OPOSIÇÃO PEQUENA, MAS BARULHENTA
A Câmara do Recife nunca foi um problema real para João no primeiro mandato. Agora, mesmo minoritária — 11 vereadores de 37 —, a oposição é ruidosa, organizada e digital. Nomes como Eduardo Moura, Felipe Alecrim e Thiago Medina transformaram fiscalização em conteúdo, visitas a postos de saúde em vídeos e denúncias em engajamento. Não governam, mas pautam. E nas redes, quem pauta, manda.
FISCALIZAÇÃO DIUTURNA VIRA DESGASTE CONTÍNUO
Obras atrasadas, unidades de saúde com problemas, creches sem estrutura. Tudo isso sempre existiu em gestões públicas, mas agora ganha lupa, trilha sonora e legenda viral. A Internet não esquece, não espera resposta técnica e não respeita calendário administrativo. O que antes era denúncia pontual virou desgaste diário, acumulativo, corrosivo.
O CASO DO CONCURSO: QUANDO A NARRATIVA FOGE DO CONTROLE
A nomeação de um candidato classificado em 63º lugar como procurador municipal, atropelando o primeiro PCD da lista, caiu como gasolina no fogo. Pior: veio acompanhada de elementos explosivos — mudança de enquadramento após o concurso homologado, vínculos familiares com órgãos de controle e a publicação do ato às vésperas do Natal. Mesmo com a revogação da nomeação, o estrago já estava feito. Na política digital, recuar não apaga o print.
INTERNET NÃO PERDOA SILÊNCIO NEM RESPOSTA FRACA
A Prefeitura demorou a reagir e, quando reagiu, falou pouco e explicou mal. Em um ambiente onde a narrativa se forma em minutos, respostas vagas viram confissão aos olhos do público. João tentou enquadrar o episódio como uma “disputa entre dois PCDs”, mas a opinião pública já tinha decidido que o debate era sobre privilégio, poder e regra mudada no meio do jogo.
CASAMENTO, LUA DE MEL E COMENTÁRIOS ÁCIDOS
Nem o anúncio do casamento com Tábata Amaral escapou do clima pesado. Em vez de celebração, as redes foram tomadas por críticas, ironias e cobranças. Algo impensável para um político tratado até pouco tempo como fenômeno pop. O episódio mostrou que, quando a imagem pública entra em desgaste, nem eventos pessoais conseguem blindagem emocional.
IMPEACHMENT NÃO PASSA, MAS DEIXA CICATRIZ
O pedido de impeachment não deve prosperar. Faltam votos, sobram obstáculos legais. Mas, politicamente, o simples fato de existir já cumpre seu papel: cola a palavra “impeachment” à imagem do prefeito, amplia o noticiário negativo e alimenta adversários estaduais. Em ano pré-eleitoral, isso vale ouro — para quem ataca.
O ALERTA PARA 2026: O DIGITAL NÃO GARANTE BLINDAGEM
Como bem define a cientista política Priscila Lapa, a política digital é volátil. A mesma velocidade que constrói reputações também as corrói. João Campos é um produto bem-acabado dessa era, mas agora enfrenta seu maior desafio: provar que consegue governar e liderar fora do roteiro do Instagram, lidando com crises reais, cobranças duras e um ambiente menos indulgente.
QUEM VIVE DO ENGAJAMENTO TAMBÉM MORRE POR ELE
João Campos segue forte, popular e competitivo. Mas entrou em 2026 com um peso que não carregava antes. O inferno das redes — rápido, impiedoso e amplificador de erros — mostrou que não escolhe lado. O palco digital que o consagrou agora cobra maturidade política, resposta firme e menos coreografia. Porque, na política, quando o espetáculo perde o encanto, o público começa a prestar atenção nos bastidores. É osso, mais é isso!
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