terça-feira, 13 de janeiro de 2026

COLUNA POLÍTICA | UNIÃO PROGRESSISTA - UM GIGANTE FRAGMENTADO | NA LUPA 🔎 | POR EDNEY SOUTO

FEDERAÇÃO UNIÃO–PP: O GIGANTE QUE NASCE FRAGMENTADO

A federação entre União Brasil e Progressistas (PP) foi concebida para ser um marco no redesenho do sistema partidário brasileiro, criando a maior força política institucional do país. No papel, números grandiosos. Na prática, porém, o projeto nasce sob forte desgaste, conflitos regionais e risco real de esvaziamento político. O caso expõe, de forma didática, os limites do modelo de federação partidária e serve como alerta para legendas que veem nesse instrumento apenas uma saída matemática para driblar a cláusula de barreira, ignorando as complexidades políticas envolvidas.

A seguir, NA LUPA, uma análise aprofundada, direta e acessível sobre os principais nós que cercam a federação União–PP.

UM PROJETO GIGANTE NO PAPEL, FRÁGIL NA POLÍTICA

Com 108 deputados federais, 12 senadores, seis governadores, mais de 1.300 prefeitos e quase R$ 1 bilhão em fundo partidário, a federação União–PP seria, numericamente, a mais poderosa do Brasil. No entanto, a força aritmética contrasta com a fragilidade política. Diferente de fusões, a federação exige convivência obrigatória por quatro anos, atuação unificada no Congresso e decisões conjuntas nas eleições — um casamento político longo, forçado e sem cláusula de divórcio simples.

A PRESIDÊNCIA COMO PRIMEIRO CAMPO DE BATALHA

O conflito começa no topo. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, se coloca como pré-candidato à Presidência, mas enfrenta resistência explícita dentro do PP, especialmente do senador Ciro Nogueira. A ausência de um nome consensual nacional desmonta o discurso de unidade antes mesmo da largada. A alternativa Tarcísio de Freitas, que unificava setores dos dois partidos, perdeu tração após Jair Bolsonaro sinalizar apoio a Flávio Bolsonaro, bagunçando ainda mais o tabuleiro.

FEDERAÇÃO NÃO É COLIGAÇÃO: O ERRO DE CÁLCULO

Muitos dirigentes venderam internamente a federação como uma “coligação turbinada”. Não é. Na prática, trata-se de uma camisa de força política. Parlamentares terão que votar juntos, dividir liderança, recursos e estratégia eleitoral. Esse choque de realidade já provoca reações: deputados e senadores avaliam deixar suas legendas antes que a federação seja homologada pelo TSE, evitando perda de autonomia.

PERNAMBUCO: UM MICROCOSMO DA CRISE NACIONAL

Em Pernambuco, o embate é emblemático. De um lado, Mendonça Filho (União); do outro, Eduardo da Fonte (PP). Ambos têm história, estrutura e ambição política. A federação obrigaria a divisão de comando e influência, algo que nenhum dos grupos aceita passivamente. Soma-se a isso o impasse sobre o palanque de 2026: PP flerta com Raquel Lyra, enquanto setores do União olham para João Campos. Resultado: tensão permanente e risco concreto de ruptura.

PARAÍBA, RIO E SÃO PAULO: CONFLITOS QUE NÃO CABEM NO TAPETE

Na Paraíba, Efraim Filho e Aguinaldo Ribeiro disputam protagonismo mirando o governo estadual, sem acordo sobre quem seria o nome da federação. No Rio, a crise se aprofunda com o desgaste do comando estadual do União após a prisão de Rodrigo Bacellar, agravando divisões internas. Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, União e PP brigam pelo controle da máquina partidária, do tempo de TV e dos recursos — um conflito silencioso, mas decisivo.

PARANÁ E AMAZONAS: VETOS, RACHAS E HERANÇAS MAL RESOLVIDAS

No Paraná, o PP rejeita abertamente a candidatura de Sergio Moro ao governo, enquanto o União insiste em mantê-la, escancarando a falta de sintonia. No Amazonas, o União ainda carrega feridas abertas da fusão entre DEM e PSL. A federação, em vez de pacificar, é vista por grupos locais como instrumento de concentração de poder, especialmente nas mãos do governador Wilson Lima.

O RISCO DA DESIDRATAÇÃO ANTES DA LARGADA

Deputados como Mendonça Filho, Alfredo Gaspar e Felipe Francischini já são citados como possíveis desfiliações. Se isso ocorrer em escala, a federação pode nascer menor do que o anunciado, enfraquecendo seu discurso de superpotência política. O paradoxo é claro: a tentativa de ganhar força institucional pode resultar em perda de quadros qualificados e lideranças regionais.

O RECADO AO SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO

O caso União–PP deixa uma lição dura: federação não se sustenta apenas com números, fundo partidário e tempo de TV. Sem alinhamento programático, confiança política e capacidade de mediação regional, o modelo vira fonte permanente de crise. Para outros partidos que cogitam seguir o mesmo caminho, o alerta está dado: sem coesão real, a federação pode virar um gigante de pés de barro.

PASSANDO A LUPA

A federação União Brasil–PP tem potencial para redesenhar o jogo político nacional, mas, do jeito que está sendo construída, corre o risco de se transformar em um laboratório de conflitos. A pressa em driblar a cláusula de barreira pode custar caro. Na política, tamanho importa — mas unidade, estratégia e liderança importam muito mais. É desse jeito!

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