Mais do que um nome ligado a um dos espaços mais emblemáticos de acolhimento e liberdade do Recife, Canário foi um construtor de ideias, afetos e símbolos. Ao lado de Maria do Céu, ajudou a idealizar e erguer a Metrópole como um território de pertencimento, respeito e celebração da diversidade, transformando o local em referência nacional para a comunidade LGBTQIA+ e para a cultura alternativa da cidade.
Canário não ocupava o centro dos holofotes, mas estava presente em cada detalhe. Os funcionários da Metrópole, profundamente impactados por sua partida, divulgaram um texto emocionante nas redes sociais que revela a dimensão humana de sua trajetória. Segundo eles, tudo o que floresce no espaço também carrega as mãos de Caliari. Cada planta, cada coqueiro que hoje faz parte da paisagem da Metrópole foi plantado por ele, como quem acredita no tempo, no cuidado e na construção paciente da vida.
Essa relação com o plantar e o esperar dizia muito sobre quem Canário era. Um homem sensível, de olhar atento, que entendia que grandes projetos não se constroem de forma apressada, mas com dedicação diária, escuta e afeto. A Metrópole, nesse sentido, é também um reflexo de sua filosofia de vida: um espaço que cresce, acolhe e resiste.
Além de sua atuação como empreendedor cultural, Canário teve uma vida inteira dedicada à arte, à imagem e às histórias do Brasil. Percorreu praias, cidades e territórios de norte a sul do país, registrando paisagens, encontros e pessoas, deixando por onde passou marcas de afeto e conexão. Sua trajetória foi pautada pelo compromisso com a memória, com a beleza e com as narrativas que ajudam a compreender o Brasil em sua diversidade.
A luta contra a doença autoimune foi descrita por aqueles que conviveram com ele como longa e extremamente corajosa. Foram meses e anos de resistência, sustentados pelo amor à vida, à família, aos filhos e à companheira de todas as horas, Maria do Céu, a quem os funcionários da Metrópole se referem como “a mulher corajosa que ele amou incondicionalmente”.
A morte de Canário Caliari representa uma perda profunda não apenas para seus familiares e amigos, mas para toda uma comunidade que encontrou na Metrópole um espaço de abrigo, expressão e liberdade. Sua ausência física deixa um vazio, mas sua presença permanece viva em cada canto do lugar que ajudou a sonhar e construir.
Como destacaram os funcionários no texto de despedida, não se trata apenas da partida de alguém importante para a história da casa, mas de alguém que se tornou família. Canário vive naquilo que floresceu a partir de suas mãos, de suas ideias e de sua crença inabalável no amor, no cuidado e na vida que se constrói aos poucos.
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