segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

OPINIÃO - É IMPOSSÍVEL GOVERNAR A VENEZUELA SEM O CHAVISMO

Por Greovário Nicollas
A Venezuela vive uma realidade que muitos insistem em ignorar: não se governa o país sem o chavismo. Após quase três décadas sob a influência direta de Hugo Chávez e, posteriormente, de Nicolás Maduro, consolidou-se um sistema de poder profundamente enraizado, que vai muito além de nomes, cargos ou eleições. Trata-se de uma engrenagem institucional, militar, econômica e social que não pode ser desmontada de forma abrupta sem consequências graves.

Donald Trump, pragmaticamente, parece ter compreendido essa lógica. Uma vez atendidos os requisitos que lhe interessam, sobretudo o acesso ao petróleo venezuelano, ativo estratégico em um mundo em permanente tensão energética, torna-se evidente que apostar em uma ruptura imediata do sistema seria um erro de alto risco. Não há tempo político, nem margem geopolítica, para esperar uma longa e incerta transição democrática.

A ideia de que figuras da oposição, como María Corina Machado, por mais simbólicas ou internacionalmente prestigiadas que sejam, ainda que se fale, de forma até fantasiosa, em prêmios e reconhecimentos globais, poderiam assumir o comando e reorganizar o país rapidamente, beira a ingenuidade. O chavismo não é apenas um governo: é um estado paralelo armado, com controle sobre forças militares, milícias, instituições e setores estratégicos da economia.

Há um alerta histórico que não pode ser desprezado: o sonho do oprimido é, muitas vezes, tornar-se o próximo opressor. Uma mudança brusca, sem controle das armas, sem dissolução gradual das estruturas de poder e sem reconstrução institucional, pode levar não à liberdade, mas à anarquia, com desdobramentos imprevisíveis  internos e regionais.

Nesse cenário, manter Delcy Rodríguez no comando, ainda que controverso, surge como a opção menos traumática no curto prazo. Não porque represente uma solução ideal, mas porque não há como desmobilizar imediatamente o aparato armado e político do chavismo sem provocar um colapso do Estado. A realidade venezuelana é muito mais grave do que o discurso simplificado vendido pela mídia internacional costuma revelar.

As instituições venezuelanas estão profundamente conectadas a um sistema criado e alimentado por Hugo Chávez, Maduro e pela atual liderança interina. Romper esse elo exige tempo, estratégia e, sobretudo, compreensão profunda do funcionamento das ditaduras modernas, algo que poucos analistas, e menos ainda comentaristas de ocasião, conseguem fazer.

Maquiavel já advertia que, ao se trocar um governante, não raramente se descobre que a substituição, por mais absurda que pareça, pode ser ainda pior. No caso da Venezuela, a lição é clara: insistir em soluções fáceis para problemas complexos é um convite ao caos. Governar o país sem o chavismo, hoje, não é apenas difícil, é, simplesmente, impossível.

*Articulista, Periodista, Aprendiz de Especialista em Relações Internacionais e Colaborador do Blog do Edney*

Nenhum comentário: