Não se trata de uma intervenção técnica que corrige vícios processuais isolados ou obscurecidos por tecnicismos. A decisão de Mendes enterra uma investigação estadual legítima — que já vinha sendo comandada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MPPE e que mirava possíveis irregularidades na adesão do município a atas de preços e medidas amplas de requisição de dados — sob a justificativa de “falta de definição do objeto” e “desvio de finalidade”. Ao mesmo tempo, Mendes autoriza a PF a investigar um suposto monitoramento ilegal, incluindo rastreamento de veículos e reconhecimento facial, que seria voltado a um secretário e seu irmão — casos que ganharam ampla repercussão na mídia após uma reportagem televisiva.
O resultado desse movimento é politicamente explosivo: a investigação que poderia atingir figuras ligadas à administração municipal é sufocada por ordem monocrática, enquanto a Polícia Federal, um órgão federal com histórico de relações estreitas com instâncias do poder central, é convocada a destrinchar a suposta “espionagem” que hoje alimenta a narrativa de perseguição política do prefeito João Campos.
A escolha de Mendes de atuar assim, à moda de um árbitro com placa de técnico político, acende o alerta sobre o uso do aparato judicial como ferramenta de intervenção em momentos particularmente sensíveis — com eleições estaduais se aproximando e atores políticos buscando espaço e narrativa favorável. Em vez de consolidar a autoridade do Judiciário como árbitro imparcial e guardião das normas, a atuação de Mendes lança a Corte como protagonista de um embate institucional que ultrapassa o Direito e adentra o terreno pantanoso da política partidária.
Sob o pretexto de neutralidade, o que se vê é uma suspensão abrupta de uma investigação local — mesmo com críticas de falta de acesso dos próprios procuradores aos autos e à motivação da decisão — enquanto outro fio de apuração, ligado à PF, servirá para alimentar linhas narrativas concorrentes no tabuleiro eleitoral. O MPPE, por exemplo, afirma que ainda não teve acesso à decisão e sequer foi oficialmente notificado, o que realça a falta de transparência em um processo que, na prática, tem efeitos políticos imediatos.
No fim das contas, a ação de Gilmar Mendes não só contribui para obscurecer investigações que podem revelar irregularidades na gestão pública, como também engrandece o papel da Polícia Federal e do STF como atores centrais em um momento de tensão política no estado. É um tipo de decisão que, longe de pacificar, amarra o Estado de Direito a interesses de curto prazo, deixando no ar a pergunta que nenhum tribunal deveria querer ouvir: quem manda aqui — a lei ou o jogo político?
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