segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

RAQUEL LYRA E JOÃO CAMPOS FICAM FORA DA ABERTURA DO ANO LEGISLATIVO EM MEIO A TENSÕES POLÍTICAS E PEDIDOS DE IMPEACHMENT


O ano legislativo em Pernambuco começa sob um clima mais pesado do que o habitual. A tradicional cerimônia de abertura dos trabalhos na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e na Câmara do Recife, marcada para esta segunda-feira, deve ocorrer sem a presença das duas principais autoridades do Executivo estadual e municipal. A governadora Raquel Lyra e o prefeito João Campos não confirmaram participação nos eventos, gesto que, embora protocolarmente possível, carrega forte simbologia política em um ano eleitoral que já se desenha turbulento.

Pelo rito das duas casas legislativas, a primeira sessão do ano é marcada por discursos institucionais e mensagens políticas. Os presidentes da Alepe e da Câmara fazem a abertura formal, passam a palavra ao representante do Executivo e, na sequência, falam os líderes da oposição e do governo. Não há votações, mas o momento serve como termômetro da relação entre os poderes e como palco para recados públicos que costumam ditar o tom dos meses seguintes. A ausência dos chefes do Executivo, portanto, não passa despercebida.

As assessorias de Raquel Lyra e João Campos informaram no domingo que ambos têm outros compromissos considerados prioritários e que, por isso, a presença não estava garantida. No caso do prefeito do Recife, a ausência já era tratada nos bastidores como provável. Em segundo mandato, João Campos não carrega a mesma necessidade de afirmação institucional de um início de gestão. Já no caso da governadora, o gesto chama mais atenção. Desde que assumiu o Palácio do Campo das Princesas, Raquel nunca havia deixado de comparecer às aberturas do ano legislativo, mesmo quando o ambiente foi hostil.

Nos dois anos anteriores, a governadora ouviu críticas duras durante essas solenidades, especialmente do presidente da Alepe, deputado Álvaro Porto, e do líder da oposição, deputado Diogo Moraes. Ainda assim, manteve a tradição de comparecer e defender, pessoalmente, as prioridades do governo. Desta vez, a ausência ocorre justamente em um momento em que o Executivo estadual enfrenta dificuldades para ver sua pauta avançar na Assembleia.

Raquel Lyra tem pressionado publicamente os deputados para que projetos enviados pelo governo e que não foram votados até dezembro — nem mesmo durante o período extraordinário convocado pela própria governadora — finalmente entrem na pauta. Entre as matérias pendentes estão temas sensíveis e estratégicos para o funcionamento do Estado. Um deles é a Lei Orçamentária Anual, cuja demora na aprovação pode gerar sérios entraves administrativos, já que a execução financeira dos poderes fica comprometida sem a definição do orçamento. Outro ponto delicado é a autorização para contratação de empréstimos junto ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal, operação que o governo considera essencial para refinanciar a dívida estadual e reorganizar o fôlego fiscal.

Enquanto isso, no Recife, o cenário legislativo é bem mais confortável para João Campos. O prefeito tem conseguido aprovar, até aqui, todos os projetos que envia à Câmara Municipal, mantendo uma base sólida e articulada. Ainda assim, a abertura do ano legislativo também ocorre sob um novo elemento de pressão: um pedido de impeachment protocolado durante o recesso parlamentar.

Tanto na Câmara do Recife quanto na Alepe, o retorno dos trabalhos será acompanhado da análise inicial de pedidos de afastamento dos chefes do Executivo. No caso do prefeito, o autor é o vereador Eduardo Moura, do Novo. Ele acusa João Campos de ter cometido crime de responsabilidade ao nomear para a Procuradoria do Município um candidato que havia ficado em 63º lugar em um concurso público. Segundo o vereador, dois anos após o certame, o candidato alegou ser autista e acabou assumindo a vaga que, na visão do parlamentar, deveria ter sido destinada a um candidato com deficiência física que aguardava nomeação.

Já na Assembleia, o pedido de impeachment contra Raquel Lyra foi apresentado pelo deputado Romero Albuquerque, do União Brasil. O parlamentar sustenta que a governadora teria sido omissa na fiscalização de uma empresa de transporte coletivo pertencente ao pai dela. A acusação mira possível conflito de interesses e falha na atuação do Estado sobre o serviço prestado à população.

Embora pedidos de impeachment nem sempre avancem e dependam de uma série de etapas formais antes mesmo de serem admitidos, o simples protocolo já adiciona temperatura ao ambiente político. Em um ano de disputas municipais e rearranjos de forças para 2026, cada movimento ganha leitura eleitoral.

A ausência de Raquel Lyra e João Campos nas cerimônias que simbolizam a retomada oficial do debate legislativo acaba, assim, ultrapassando o campo da agenda administrativa. Vira sinal político. Em vez de discursos presenciais tentando estabelecer pontes, o que se verá é um início de ano marcado por distanciamento, recados indiretos e um Legislativo que se prepara para ocupar, ainda mais, o centro das tensões entre governo e oposição.

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