domingo, 1 de fevereiro de 2026

TJPE VALIDA PROVAS E REABRE INVESTIGAÇÃO SOBRE SUPOSTO ESQUEMA MILIONÁRIO NA PREFEITURA DO RECIFE

O Tribunal de Justiça de Pernambuco decidiu destravar uma investigação de grande porte que apura possíveis irregularidades em contratos firmados pela Prefeitura do Recife. Em julgamento unânime realizado pela 2ª Câmara Criminal, os desembargadores consideraram válidas as provas reunidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), permitindo que o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) retome a apuração de um suposto esquema que envolveria cerca de R$ 120 milhões em recursos públicos.

A investigação estava suspensa por decisão de primeira instância, que havia acolhido argumentos de nulidade das provas e interrompido o andamento do inquérito. O novo entendimento do TJPE reverteu esse cenário ao afirmar que as medidas adotadas pelo Ministério Público tiveram base concreta e fundamentação específica, afastando a tese de que as diligências teriam ocorrido de forma genérica ou sem direcionamento claro.

O caso gira em torno de contratos celebrados a partir de 2021, período que coincide com o primeiro ano da atual gestão municipal. Segundo o MPPE, há indícios de um modelo de contratação que pode ter burlado o processo licitatório tradicional por meio da adesão a Atas de Registro de Preços de entidades localizadas fora de Pernambuco. A Prefeitura do Recife teria aderido a atas vinculadas à Associação dos Municípios da Bacia do Médio São Francisco (AMMESF) e ao Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Ambiental Sustentável do Norte de Minas (Codanorte), ambos sediados em Minas Gerais, a mais de 1.600 quilômetros da capital pernambucana.

Os valores sob análise chamam a atenção. De acordo com os autos, aproximadamente R$ 99,4 milhões teriam sido contratados por meio da AMMESF e outros R$ 19,2 milhões via Codanorte. A empresa formalmente beneficiada pelos contratos seria a construtora mineira Sinarco Ltda. No entanto, os investigadores suspeitam que a companhia possa ter atuado apenas como intermediária, dando aparência de regularidade a um arranjo cujo centro operacional estaria, na prática, em Pernambuco.

Relatórios de inteligência financeira anexados ao processo indicam que, após receber recursos da Prefeitura, a Sinarco teria transferido mais de R$ 60 milhões para outra empresa, a Alca Engenharia, com atuação local. Para o MPPE, essa movimentação pode indicar que a execução efetiva dos serviços e a maior parte dos ganhos financeiros teriam ficado com a empresa pernambucana, levantando dúvidas sobre a lisura da cadeia de contratação.

Outro ponto destacado na investigação envolve a fiscalização das obras. Um dos sócios da empresa responsável por auditar serviços ligados à Sinarco teria registrado movimentações financeiras da ordem de R$ 1,2 milhão em curto espaço de tempo, valor considerado incompatível com sua renda declarada. A suspeita é de que esses recursos possam estar relacionados a pagamentos ilícitos ou a tentativas de ocultação de valores, hipótese que ainda será aprofundada com a retomada das diligências.

Ao autorizar a continuidade do inquérito, o TJPE também ressaltou que os indícios apurados até agora apontam, em tese, para crimes como organização criminosa, fraude à licitação e lavagem de dinheiro. Com isso, o Ministério Público volta a ter respaldo judicial para analisar contratos, fluxos financeiros e a eventual participação de empresas e pessoas físicas no suposto esquema.

Procurada, a Prefeitura do Recife informou anteriormente, em declarações à imprensa nacional, que não figura formalmente como investigada e que o foco da apuração estaria restrito a um núcleo empresarial. A gestão municipal também declarou confiar na legalidade das contratações realizadas e afirmou que os procedimentos adotados seguiram os parâmetros administrativos vigentes. Até o momento mais recente, não havia novo posicionamento oficial sobre a decisão do Tribunal.

Com a validação das provas e a retomada das investigações, o caso entra em uma nova fase, na qual o MPPE poderá aprofundar a análise de documentos, quebras de sigilo e movimentações financeiras. O desfecho ainda é incerto, mas a decisão do TJPE recoloca sob escrutínio judicial um conjunto de contratos de alto valor firmados pela administração municipal, ampliando a atenção sobre a transparência e a regularidade no uso de recursos públicos.

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