O estopim foi o anúncio de que Osmar deixará a Câmara do Recife a partir desta terça-feira (3), retornando à condição de suplente. A vaga será reassumida pelo secretário de Direitos Humanos e Juventude, Marco Aurélio Filho (PV), que volta ao mandato parlamentar. Nos bastidores, a movimentação foi interpretada como uma resposta direta ao fato de Osmar ter assinado o pedido de instalação da CPI do chamado “fura-fila” — investigação que atingiu o coração da gestão municipal.
A assinatura do petista foi decisiva: a 13ª, número que garantiu o encaminhamento do pedido à Presidência da Casa. Para Osmar, o preço por ter exercido o que chama de “liberdade de opinião” foi alto demais.
Em entrevista ao Blog Dantas Barreto, o vereador não poupou palavras. Disse que fará um movimento contra o prefeito por perseguição política e prometeu usar o peso de sua dupla liderança — no PT do Recife e no Sindicato dos Servidores Municipais — para endurecer o discurso. “Ele vai sentir o trabalho e a força de quem é presidente municipal do PT e do Sindicato dos Servidores do Recife. Vai ver o que é oposição de verdade”, disparou.
O tom adotado pelo parlamentar é de rompimento definitivo. Osmar lembrou que esteve ao lado de João Campos, inclusive defendendo sua eleição, mas afirma que agora paga o preço por não se submeter. “Votei nele, caminhei com a bandeira do PSB, mas me libertei desse povo chamado Campos”, declarou, numa referência direta ao grupo político do prefeito. A crítica foi além, atingindo o que ele classificou como “oligarquia” que, segundo suas palavras, perderá espaço tanto no Governo do Estado quanto no Recife.
A menção ao Governo do Estado não é por acaso. O cenário estadual, comandado por Raquel Lyra (PSD), também entra na equação. Osmar já projeta seu retorno à Câmara caso se confirme a nomeação da vereadora Flávia de Nadegi para uma secretaria estadual. Flávia, eleita na aliança da Frente Popular, rompeu com a base de João Campos no ano passado e passou a integrar o campo de oposição.
Segundo articulações que circulam nos bastidores, a possível ida de Flávia para o Governo do Estado abriria espaço para que Osmar reassumisse o mandato. Ele não esconde a expectativa: “Se acontecer isso, serei muito grato”, afirmou, confiante de que seu retorno é questão de tempo.
A crise expõe fissuras profundas na antiga aliança entre PT e PSB no Recife. O que antes era parceria estratégica virou embate público, com troca de acusações e ameaça de enfrentamento direto. A CPI do “fura-fila”, que começou como um movimento parlamentar, transformou-se em divisor de águas político.
Osmar sustenta que não agiu por acordo oculto, mas por convicção. Ainda assim, há quem diga que sua assinatura na CPI teria feito parte de uma engenharia política mais ampla, envolvendo rearranjos na Câmara e aproximações com o Palácio do Campo das Princesas. Oficialmente, ele nega qualquer barganha e afirma que a decisão foi tomada por responsabilidade com a população.
No meio desse tabuleiro, os servidores municipais tornam-se peça-chave. Como presidente do sindicato da categoria, Osmar sinaliza que poderá transformar o desgaste político em mobilização social. A promessa é clara: endurecer a oposição, fiscalizar cada passo da gestão e dar voz às insatisfações acumuladas.
Se antes dizia que o “PT estava roxinho”, em referência à cor que também remete ao campo político da governadora, agora o discurso ganha outro significado. Para Osmar, o roxo simboliza resistência e enfrentamento. A saída momentânea da Câmara, ao invés de enfraquecê-lo, é apresentada como combustível.
A pergunta que ecoa nos corredores do Legislativo é simples: João Campos calculou o tamanho da reação? Ao tentar reorganizar a base, pode ter dado palco a um adversário interno disposto a transformar a mágoa em bandeira.
Nos próximos dias, a movimentação em torno de Flávia de Nadegi e do Governo do Estado será decisiva. Se a nomeação se concretizar, Osmar retorna com discurso inflamado e capital político renovado entre setores descontentes. Se não, a crise seguirá como ferida aberta.
Uma coisa é certa: a paz entre o PT recifense e o prefeito socialista ficou no passado. E Osmar Ricardo faz questão de avisar que não pretende sair de cena em silêncio. Pelo contrário — promete voltar mais roxinho do que nunca.
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