A eleição de 2026 deixou uma fotografia que merece ser ampliada: João Campos perdeu em casa.
O ex-prefeito do Recife conseguiu vencer no principal reduto eleitoral do PSB em Pernambuco, mas a vantagem sobre Raquel Lyra ficou muito abaixo do tamanho da força política que ele carregava depois de uma reeleição histórica na capital, com mais de 78% dos votos válidos em 2024.
João teve 473.994 votos no Recife, o equivalente a 49,94% dos votos válidos, enquanto Raquel chegou a 437.301 votos, ou 46,07%. A diferença foi de apenas 36.693 votos.
Para quem comandou a Prefeitura e deixou o cargo com uma aprovação eleitoral gigantesca, o número chama atenção.
Mais do que isso: o Recife não conseguiu entregar a João a vantagem que ele precisava para transformar a capital em uma espécie de locomotiva eleitoral da sua candidatura ao Governo de Pernambuco.
E a conta ficou ainda mais pesada quando se olha para a Região Metropolitana.
Raquel Lyra venceu em 11 dos 15 municípios do Grande Recife, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral. A governadora levou Abreu e Lima, Araçoiaba, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Igarassu, Ilha de Itamaracá, Ipojuca, Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Moreno e Paulista. João ficou à frente nas demais cidades metropolitanas.
O resultado mostra que a força de João esteve concentrada principalmente na capital, mas não se transformou em domínio regional.
Em Jaboatão dos Guararapes, segundo maior colégio eleitoral da RMR, Raquel teve 178.448 votos, 51,24%, contra 160.604 de João, 46,12%. Foram 17.844 votos de vantagem para a governadora.
Em Paulista, outro gigante eleitoral da região, Raquel também venceu: 94.938 votos, 52,53%, contra 80.110 de João, 44,31%, uma diferença de 14.828 votos.
Em Camaragibe, a distância foi ainda maior. Raquel alcançou 55.624 votos, 57,32%, enquanto João ficou com 39.004, 40,21%.
Em Igarassu, a governadora chegou a 39.366 votos, 59,44%, contra 25.813 de João, 38,97%.
Em Ipojuca, município estratégico por causa de Suape, Raquel marcou 35.954 votos, 56,63%, contra 26.642, 41,96%, abrindo vantagem superior a 9 mil votos.
Em Abreu e Lima, foram 31.739 votos para Raquel, 52,26%, contra 27.773 para João, 45,73%.
Em Araçoiaba, Raquel teve 7.432 votos, 58,33%, contra 5.222 de João, 40,99%.
Em Itapissuma, a diferença foi ainda mais expressiva: 10.578 votos para Raquel, 65,20%, contra 5.481 para João, 33,78%.
Na Ilha de Itamaracá, a governadora chegou a 9.359 votos, 67,78%, enquanto João ficou com 4.273 votos, 30,95%.
Moreno também ficou com Raquel, assim como o Cabo de Santo Agostinho, onde a disputa foi apertadíssima: 61.477 votos para Raquel contra 60.330 para João, apenas 1.147 votos de diferença.
E existe um detalhe político importante nesse resultado.
João não estava disputando apenas contra Raquel. Ele carregava o peso de ter sido prefeito do Recife até pouco tempo antes, tinha uma estrutura política construída durante anos e contava com o discurso de que sua força na capital e na Região Metropolitana seria o grande contraponto à capilaridade da governadora no interior.
A estratégia, porém, não funcionou como esperado.
Raquel venceu em 11 das 15 cidades metropolitanas.
E isso muda completamente a narrativa de que João teria um domínio praticamente automático sobre a região.
O Recife continuou sendo seu principal território, mas até ali a vantagem foi estreita. João terminou com 49,94%, contra 46,07% de Raquel. A governadora conseguiu quase empatar na capital mesmo sendo adversária de um ex-prefeito que havia acabado de sair da Prefeitura com uma votação consagradora.
Na eleição presidencial, o sinal também apareceu.
Lula venceu no Recife com 55,29%, contra 38,37% de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de 16,92 pontos. Em Pernambuco, entretanto, Lula terminou o primeiro turno com 63,45%, enquanto Flávio teve 31,03%. Ou seja, a vantagem de Lula no Recife foi quase metade da registrada no estado.
Isso significa que o Recife continua sendo majoritariamente um território de esquerda, mas já não apresenta a mesma distância observada no conjunto de Pernambuco.
E a eleição para o Senado reforçou o recado.
Marília Arraes foi a mais votada na capital, com 432.843 votos, 25,9%, seguida por Humberto Costa, com 417.585, 25%. Mendonça Filho ficou muito próximo dos dois, mostrando que o eleitorado recifense não entregou um cheque em branco ao campo político que domina a Prefeitura.
O quadro, portanto, não permite dizer que a esquerda perdeu o Recife.
Mas permite dizer algo politicamente mais interessante: a margem de segurança diminuiu.
João Campos venceu a capital para o Governo, mas não transformou essa vitória em uma avalanche. Lula venceu para presidente, mas com desempenho muito inferior ao registrado no estado. Marília e Humberto lideraram para o Senado, mas encontraram Mendonça Filho muito próximo.
É uma eleição diferente de 2024, evidentemente. Não se pode simplesmente transportar o resultado de uma eleição estadual para uma eleição municipal.
Mas política se faz também com sinais.
E o sinal de 2026 é que 2028 não será um passeio.
O PSB continua forte no Recife. João Campos continua sendo uma das maiores lideranças políticas de Pernambuco. A máquina política construída pela família Campos continua tendo enorme peso.
Só que os números mostram que existe espaço para a oposição.
Raquel Lyra, por sua vez, mostrou que conseguiu entrar no território político de João e sair praticamente empatada na capital, ao mesmo tempo em que venceu a maioria das cidades metropolitanas e terminou o primeiro turno com 2.805.438 votos, 53,27%, contra 2.360.469 de João, 44,82%, uma diferença estadual de 444.969 votos.
O Recife continua sendo de João?
Sim.
Mas a pergunta que as urnas deixaram é outra: por quanto tempo essa vantagem continuará sendo suficiente?
Em 2024, João parecia ter transformado o Recife em território praticamente inexpugnável.
Em 2026, Raquel mostrou que consegue chegar perto.
E quando uma adversária consegue encostar no prefeito que acabou de deixar o cargo e ainda vence em 11 das 15 cidades da Região Metropolitana, os adversários começam a fazer contas.
JOÃO PERDEU EM CASA. E 2028 JÁ COMEÇOU A SER DISCUTIDO NAS ENTRELINHAS DAS URNAS.
Por: Edney Souto
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