Gasolina cara, alimentos pesando no orçamento e dificuldade para fechar as contas do mês colocam a economia no centro da disputa presidencial.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à reta final da eleição presidencial diante de um adversário que vai além de Flávio Bolsonaro. É um inimigo silencioso, que não precisa de palanque, discurso inflamado ou propaganda eleitoral para ser percebido: o bolso do brasileiro.
A disputa pode ser travada na televisão, nas redes sociais e nos atos de campanha, mas é na hora de abastecer o carro, fazer a feira e pagar as contas de casa que muita gente mede, de verdade, os resultados de um governo. E é justamente nesse terreno que Lula enfrenta um dos seus maiores desafios políticos.
O governo pode apresentar números positivos, defender programas sociais e destacar indicadores econômicos favoráveis. Mas existe uma pergunta que continua rondando milhões de famílias: por que o dinheiro parece valer cada vez menos?
O sentimento de aperto financeiro se transformo em combustível para a insatisfação de parte do eleitorado. E, numa eleição apertada, a percepção sobre o custo de vida pode pesar tanto quanto os grandes discursos políticos.
A CONTA CHEGA PRIMEIRO QUE A PROPAGANDA
A gasolina acima de R$ 6 por litro, o gás de cozinha e os preços dos alimentos ajudam a explicar por que a economia permanece no centro das preocupações populares. Encher um tanque de 50 litros, por exemplo, significa desembolsar mais de R$ 300 quando o combustível custa acima desse patamar.
No supermercado, a situação também exige atenção. Alimentação, produtos de limpeza e despesas domésticas consomem uma parcela importante da renda, especialmente entre trabalhadores que recebem salários menores e têm pouca margem para imprevistos.
Os números do IBGE ajudam a dimensionar o problema. Em 2024, o IPCA, índice oficial de inflação do país, fechou com alta de 4,83%, acima do teto da meta daquele período. O grupo alimentação e bebidas subiu 7,69%.
Há uma diferença importante nessa discussão: inflação menor não significa, necessariamente, produtos mais baratos. Quando a inflação desacelera, os preços continuam subindo, apenas em ritmo menor. Para o consumidor, a sensação é de que a feira nunca volta a custar o que custava antes.
É aí que a realidade das famílias entra em choque com os argumentos apresentados nos palanques.
GASTOS PÚBLICOS E JUROS ENTRAM NA DISCUSSÃO
A política econômica também virou alvo de questionamentos. O crescimento das despesas públicas, as dificuldades para cumprir objetivos fiscais e as incertezas sobre a trajetória da dívida alimentam o debate sobre a capacidade do governo de manter as contas sob controle.
Quando investidores e agentes econômicos desconfiam da sustentabilidade das contas públicas, os efeitos podem aparecer nas expectativas de inflação, no câmbio e nas condições de financiamento da economia. Esse cenário pode dificultar a redução dos juros e encarecer o crédito para famílias e empresas.
É verdade que o Brasil não controla sozinho todos os fatores que influenciam os preços. Questões internacionais, condições climáticas, custos de produção e variações cambiais também entram nessa equação. Ainda assim, a condução fiscal do governo tem peso relevante e não pode ser retirada da discussão.
A crítica central é que estimular a economia por meio de gastos, sem garantir equilíbrio fiscal sustentável, pode produzir benefícios de curto prazo e ampliar incertezas no futuro. O desafio está em conciliar crescimento, proteção social e responsabilidade com o dinheiro público.
O ELEITOR NÃO PRECISA ENTENDER DE ECONOMIA PARA SENTIR A CRISE
Na campanha, os candidatos disputam narrativas e tentam convencer o eleitor de que representam o melhor caminho para o país. Mas a decisão de uma família nem sempre acompanha a lógica dos indicadores apresentados em entrevistas e debates.
Quem trabalha o mês inteiro e vê o salário desaparecer antes do próximo pagamento não precisa conhecer o tamanho da dívida pública para perceber que alguma coisa está pesando no orçamento.
Esse é o ponto mais delicado para Lula. O presidente tem a vantagem de defender as ações de um governo em exercício, mas também carrega a responsabilidade pelos problemas que continuam afetando a vida da população. Benefícios sociais e transferências de renda ajudam a proteger famílias vulneráveis, porém não eliminam, sozinhos, as dificuldades relacionadas ao custo de vida.
Flávio Bolsonaro tenta ocupar esse espaço e transformar a insatisfação econômica em argumento eleitoral. A questão é saber se conseguirá convencer o eleitor de que oferece uma alternativa mais eficiente ou se Lula conseguirá demonstrar que os resultados de sua gestão compensam as dificuldades enfrentadas pelas famílias.
A ELEIÇÃO TAMBÉM SERÁ DECIDIDA NO SUPERMERCADO
Na reta final, o debate econômico ganha uma dimensão que ultrapassa a disputa entre esquerda e direita. Trata-se da capacidade de cada candidato de responder a uma preocupação concreta: como fazer o dinheiro render mais?
O próximo presidente terá de enfrentar desafios relacionados à inflação, aos juros, às contas públicas, ao crescimento e à geração de renda. Não existe solução simples para problemas dessa dimensão, e promessas de campanha não substituem medidas consistentes.
Para Lula, o risco é que a percepção de perda do poder de compra se sobreponha aos resultados positivos que o governo apresenta. Para Flávio Bolsonaro, a oportunidade está em transformar esse descontentamento em votos.
No fim das contas, a eleição não será decidida apenas pelo que os candidatos dizem nos palanques. Também pesará aquilo que o brasileiro sente quando abre a carteira, passa o cartão e percebe que a conta ficou maior.
Na política, o discurso pode convencer por alguns minutos. Mas, quando o dinheiro acaba antes do mês, a realidade costuma falar mais alto.
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