A fala de João Paulo, embora ruidosa e estratégica, revela um movimento alinhado à lógica do PT Nacional: ampliar a presença eleitoral de Lula sem atrelar o presidente a um único projeto estadual. Em um cenário político fragmentado como o pernambucano, essa construção exige cautela e leitura realista do comportamento do eleitorado. A força de Lula no estado é significativa, mas está longe de ser absoluta, apesar da narrativa que setores do petismo insistem em sustentar.
O próprio presidente tem adotado uma postura pragmática. Ao invés de fechar questão em torno de um nome, Lula busca manter portas abertas, dialogando com diferentes campos políticos. A ideia de palanque duplo — ou até triplo — surge exatamente dessa necessidade de maximizar ganhos eleitorais, sem assumir riscos desnecessários. Nesse contexto, João Paulo chegou a sugerir que Lula possa dividir espaço, em Pernambuco, com Raquel Lyra (PSD), João Campos (PSB) e até com Ivan Moraes (PSOL).
A proposta indica uma estratégia de capilaridade política, mas não deve ser confundida com poder absoluto. Lula influencia, mobiliza e agrega votos, mas não define eleições sozinho. A história recente de Pernambuco comprova isso de forma incontestável. Mesmo em momentos de alta popularidade do presidente, candidatos alinhados ao Planalto enfrentaram derrotas expressivas no estado.
Os exemplos são emblemáticos. Em 2006, Humberto Costa (PT) disputou o Governo de Pernambuco com Lula em plena força nacional e acabou derrotado. Em 2022, Marília Arraes (SD), com o apoio direto do presidente, não conseguiu vencer a eleição estadual. No mesmo pleito, Danilo Cabral (PSB), candidato escolhido como prioridade pelo campo lulista, terminou apenas na quarta colocação.
O histórico atinge também o próprio João Paulo, hoje defensor do palanque múltiplo, que já vivenciou derrotas eleitorais relevantes mesmo contando com o apoio do presidente da República. Esses episódios reforçam uma constatação incômoda para o PT: Lula é decisivo, mas não é onipotente no tabuleiro pernambucano.
O eleitor local tem comportamento próprio, avalia gestões, lideranças regionais e conjunturas específicas. O carisma presidencial pesa, mas não substitui projetos sólidos, alianças bem costuradas e candidaturas competitivas. Nesse sentido, a defesa de múltiplos palanques parece menos uma demonstração de força do PT estadual e mais um reconhecimento tácito de seus limites.
O debate, portanto, vai além da disputa interna entre correntes petistas. Ele escancara uma realidade política: em Pernambuco, Lula é um ator central, mas não o único. E qualquer estratégia que ignore essa complexidade corre o risco de repetir derrotas já conhecidas.