A reeleição de Raquel Lyra (PSD) resolveu uma equação eleitoral em Pernambuco, mas abriu outra, bem mais espinhosa, para o presidente Lula (PT): quem vai conseguir levar a governadora para o palanque de um dos candidatos à Presidência no segundo turno?
Desde que confirmou a vitória nas urnas, no último domingo, Raquel tem repetido que pretende manter a mesma postura adotada no primeiro turno: coerência e Pernambuco em primeiro lugar. Até agora, a governadora não declarou apoio nem a Lula nem a Flávio Bolsonaro (PL).
Mas o silêncio de Raquel começou a incomodar o entorno do presidente.
Lula já acionou aliados para tentar abrir uma conversa com a governadora. A estratégia é simples: depois de garantir mais quatro anos no Palácio do Campo das Princesas, Raquel não precisa mais administrar o equilíbrio eleitoral pensando em uma disputa estadual. Agora, a pressão passa a ser nacional.
Um dos nomes escalados é o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Integrante do mesmo PSD de Raquel, ele já sinalizou que pretende conversar com a governadora e tentar aproximá-la de Lula.
Outro nome que pode entrar em campo é Rui Costa (PT), ex-ministro da Casa Civil e antigo articulador da relação entre o Governo Federal e os governadores. Durante sua passagem pelo Planalto, Rui foi uma das principais pontes entre Lula e Raquel.
Também pode participar da operação o senador reeleito Humberto Costa (PT). A relação entre os dois é considerada boa e, durante toda a campanha do primeiro turno, Humberto evitou transformar Raquel em adversária política.
O resultado das urnas mostrou, inclusive, que a relação política entre os dois grupos é mais complexa do que parece. Humberto recebeu apoio de prefeitos ligados à governadora, inclusive integrantes do PSD. Isso aconteceu mesmo com Raquel tendo Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadêlha (PSD) em sua chapa para o Senado.
A questão agora é saber se essa relação será suficiente para fazer Raquel atravessar a ponte em direção a Lula.
E essa não parece ser uma travessia fácil.
Raquel chega ao segundo turno presidencial com uma posição privilegiada: foi reeleita governadora e, portanto, não precisa mais fazer concessões eleitorais para garantir sua permanência no cargo. Pode escolher o caminho que considerar mais conveniente para seu projeto político e para Pernambuco.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro conta com aliados importantes dentro do campo político que ajudou a eleger Raquel em 2022 e que permanece próximo da governadora. O candidato do PL também terminou o primeiro turno à frente em Pernambuco, criando um cenário que aumenta a pressão sobre a governadora.
Raquel, por enquanto, prefere não entregar o jogo.
Questionada sobre a eleição presidencial em sua primeira entrevista depois da reeleição, ela novamente evitou declarar voto e recorreu ao discurso que marcou sua campanha: Pernambuco acima das disputas nacionais.
“Eu sempre disse que ser pernambuquista era colocar Pernambuco em primeiro lugar, independentemente de qualquer circunstância”, afirmou.
Na sequência, a governadora falou sobre sua relação institucional com Lula e fez questão de registrar sua gratidão ao presidente.
É justamente aí que está o detalhe político que chama atenção.
Raquel não rompeu com Lula, mas também não fechou com Lula. Não atacou Flávio, mas também não abraçou Flávio.
E essa posição, que antes poderia ser interpretada apenas como cautela eleitoral, agora ganha outro peso.
Nos próximos 20 dias, o Palácio do Planalto deverá aumentar a pressão. Ministros, senadores, ex-ministros e aliados pernambucanos podem desfilar pela mesa da governadora tentando descobrir se existe uma brecha.
O problema é que Raquel chega ao segundo turno com uma carta que poucos governadores possuem: acabou de conquistar uma reeleição expressiva e pode se dar ao luxo de ouvir todo mundo antes de escolher qualquer lado.
Lula quer Raquel. Flávio também sabe o valor político desse apoio.
E, enquanto os dois lados disputam espaço, a governadora parece disposta a fazer o que mais interessa a quem acabou de vencer uma eleição: deixar os pretendentes esperando.