A eleição de 2026 terminou, mas deixou uma reflexão importante sobre o momento político que Pernambuco vive. Lula foi reeleito presidente da República, Raquel Lyra conquistou mais quatro anos no Governo do Estado e o resultado das urnas mostrou, mais uma vez, que o eleitor pernambucano sabe separar suas escolhas e não aceita, necessariamente, seguir uma única orientação partidária. Agora, com os dois vencedores para os próximos quatro anos, a expectativa é que a relação institucional entre o Palácio do Planalto e o Palácio do Campo das Princesas se fortaleça ainda mais.
Pernambuco nunca faltou a Lula. Desde sua primeira eleição presidencial, em 2002, o estado demonstrou uma identificação eleitoral com o petista que atravessou diferentes momentos da política nacional. Lula foi majoritário entre os pernambucanos em 2002, 2006, 2022 e novamente em 2026. Dilma Rousseff também recebeu a maioria dos votos do estado em 2010 e no segundo turno de 2014, enquanto Fernando Haddad venceu em Pernambuco em 2018. Em 2026, Lula voltou a encontrar no eleitorado pernambucano uma de suas principais bases de sustentação eleitoral.
No pleito deste ano, o presidente alcançou aproximadamente 63% dos votos válidos no primeiro turno e 69% no segundo turno em Pernambuco, conforme os resultados eleitorais considerados nesta análise. Uma votação expressiva que reafirma a força do lulismo no estado e a permanência de uma relação política construída ao longo de mais de duas décadas.
Mas o eleitor pernambucano também mandou outro recado: o apoio a Lula não significava, obrigatoriamente, rejeição a Raquel Lyra. A governadora foi reeleita no primeiro turno, com quase 54% dos votos válidos, mesmo sem contar com o apoio oficial do PT e do presidente. O partido e Lula caminharam eleitoralmente com João Campos, do PSB, principal adversário da governadora na disputa estadual.
Essa separação de votos não é novidade em Pernambuco. Em 2014, Paulo Câmara conseguiu se eleger governador sem o apoio de Lula e do PT, que naquele momento estavam em outro campo político. Em 2026, Raquel repetiu a demonstração de força eleitoral ao conquistar a reeleição com uma base própria e uma relação institucional com o governo federal que não dependia de alinhamento nas urnas.
João Campos, por sua vez, também sai da eleição como uma liderança de peso. Mesmo derrotado na disputa pelo Governo do Estado, demonstrou força eleitoral, mobilizou uma parcela expressiva do eleitorado e contribuiu para o desempenho de seu campo político nas disputas legislativas. É inegável que outro nome da oposição poderia não ter alcançado a mesma votação nem produzido o mesmo resultado para as chapas proporcionais. A derrota, portanto, não elimina seu protagonismo na política pernambucana.
É justamente nesse cenário que o chamado “Luquel” ganha importância. A expressão representa a aproximação institucional entre Lula e Raquel, dois políticos que não estiveram no mesmo palanque durante a campanha, mas que têm muito a ganhar quando trabalham em favor de Pernambuco.
A relação entre os governos já apresentou exemplos concretos. Na infraestrutura, a duplicação da BR-423, no trecho entre São Caetano e Lajedo, no Agreste, é um dos projetos que mostram a importância da atuação federal em uma região estratégica para o comércio, a produção e a circulação de pessoas. O empreendimento foi anunciado com investimento estimado em R$ 330,3 milhões e previsão de duplicação de 43,1 quilômetros.
O Novo PAC também abriu perspectivas para obras estruturantes no estado, com investimentos previstos em rodovias, ferrovias, abastecimento de água e outras áreas. Entre os projetos de maior relevância estão a Transnordestina, a BR-104, a BR-423 e as adutoras do Agreste e do Pajeú. São iniciativas que, se executadas e ampliadas, podem ajudar a reduzir desigualdades regionais e impulsionar a economia pernambucana.
Na habitação, a integração entre o Morar Bem Pernambuco e o Minha Casa, Minha Vida demonstrou como programas estaduais e federais podem atuar de forma complementar para facilitar o acesso à casa própria. Na saúde, a cooperação entre os governos também representa uma oportunidade para avançar na construção e estruturação de unidades hospitalares, ampliar a assistência e reduzir as dificuldades enfrentadas pela população que depende do SUS.
O desafio agora é transformar essas iniciativas em resultados cada vez mais abrangentes. A Transnordestina, a melhoria da malha rodoviária, o avanço do Arco Metropolitano, a ampliação do abastecimento de água e os investimentos em saúde e habitação precisam ocupar lugar central na agenda dos dois governos.
Com Lula reeleito e Raquel também reconduzida ao cargo, Pernambuco tem uma oportunidade política importante. O presidente pode ampliar a presença dos investimentos federais no estado, enquanto a governadora tem a possibilidade de fortalecer a articulação com Brasília para destravar projetos, acelerar obras e buscar recursos para os municípios pernambucanos.
Isso não exige que os dois abandonem suas diferenças partidárias, muito menos que transformem a relação administrativa em uma aliança eleitoral. Exige maturidade política e compreensão de que os interesses da população precisam estar acima das disputas entre partidos e lideranças.
A experiência recente mostrou que é possível votar em Lula para presidente e em Raquel para governadora. O eleitor fez essa escolha e demonstrou que não aceita necessariamente a lógica de uma única composição política. Agora, a mesma população espera que os dois governantes saibam trabalhar juntos.
O sucesso do “Luquel” será medido menos pelas fotografias em solenidades e mais pelas obras entregues, pelos hospitais funcionando, pelas estradas concluídas, pela água chegando ao interior e pelas oportunidades de emprego e renda que forem criadas.
A eleição terminou, as urnas deram suas respostas e os mandatos foram renovados. Lula e Raquel têm diante de si quatro anos para demonstrar que a convivência institucional pode ser mais forte do que as diferenças eleitorais. Se conseguirem transformar diálogo em investimento e parceria em entregas, Pernambuco poderá ser um dos grandes beneficiados dessa nova etapa.
No fim, a vitória eleitoral de ambos abre uma porta. Cabe agora aos dois governos atravessá-la e fazer com que o “Luquel” deixe de ser apenas uma expressão política para se consolidar como uma parceria capaz de produzir resultados concretos para Pernambuco.