A investigação foi formalizada após decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou que fosse instaurado um inquérito para verificar a existência de indícios de espionagem ou “arapongagem” por parte da Polícia Civil de Pernambuco, órgão subordinado ao governo do estado.
Como começou a controvérsia
A controvérsia teve início no fim de janeiro, quando foi apresentada uma denúncia de que o secretário de Articulação Política e Social da Prefeitura do Recife, Gustavo Queiroz Monteiro, estaria sendo monitorado por agentes da Polícia Civil de Pernambuco — um ato que, se confirmado, poderia configurar uma violação de garantias básicas e das normas que regem o uso de força policial em investigações.
O despacho de Gilmar Mendes, além de determinar a abertura do inquérito pela PF, também suspendeu uma investigação que estava sendo conduzida pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE). O ministro justificou sua decisão afirmando que a apuração estadual demonstrava “desvio de finalidade, ausência de delimitação objetiva e violação à tese de neutralidade estatal” definida pelo STF.
O que está em apuração
Segundo o despacho, a investigação estadual teria utilizado requisições “massivas e horizontais” de dados sem foco claro — um método que, no jargão jurídico, pode ser classificado como “fishing expedition” (busca genérica por indícios sem presunção ou justificativa específica) e que é considerado ilegal no Brasil.
Os pontos que devem ser analisados pela PF no novo inquérito incluem:
Se houve de fato instalação de meios de rastreamento ou vigilância sobre os movimentos do secretário ou de seus familiares;
Quem autorizou, executou ou ordenou eventuais diligências de monitoramento;
Se houve violação de normas constitucionais ou penais relativas à privacidade, abuso de poder e neutralidade do Estado.
Até o momento, a própria Polícia Civil de Pernambuco reconheceu que realizou uma checagem motivada por uma denúncia interna relacionada a suposto recebimento de propina ligado a um veículo oficial, mas negou que tenha havido acompanhamento de rotina ou espionagem direcionada ao secretário ou a parentes.
Contexto político e impacto eleitoral
O caso ganhou relevância nacional porque ocorre em um momento chave para a política em Pernambuco: João Campos, do PSB, está entre os nomes mais fortes na disputa pelo governo do estado em 2026, e enfrenta a atual governadora Raquel Lyra (PSD).
O episódio tem alimentado um debate intenso sobre legalidade, uso de instituições públicas para fins políticos e a integridade de investigações conduzidas por órgãos estaduais em um ano eleitoral acirrado. Enquanto a defesa da gestão municipal fala em tentativa de “interferência indevida” em opositores, autoridades estaduais sustentam que a checagem teria sido apenas uma ação legítima diante de denúncia concreta — ainda que sem desdobramentos.
Os próximos passos
Com o inquérito instaurado, caberá agora ao delegado designado pela Polícia Federal coletar documentos, ouvir testemunhas e analisar provas para determinar se houve crime e quem poderá responder criminalmente pelo caso. O processo deverá tramitar sob sigilo nas fases iniciais e poderá resultar em requerimentos de medidas cautelares, pedidos de quebras de sigilo ou eventuais indiciamentos, caso sejam identificados indícios suficientes de irregularidades.
O desenrolar deste inquérito será observado de perto, não apenas pela esfera judicial, mas também pelos setores políticos e pela sociedade civil, que veem no episódio um termômetro para a equidistância das instituições em períodos eleitorais e a proteção das garantias individuais frente a poderes policiais.
