A visita da governadora Raquel Lyra a Serra Talhada neste sábado ganha um peso político que vai muito além da entrega de obras. O ato marca um novo capítulo na reconfiguração das forças políticas do principal município do Sertão do Pajeú e evidencia o crescente isolamento enfrentado pela prefeita Márcia Conrado, que vê antigos aliados migrarem para o grupo da chefe do Executivo estadual.
A situação chama atenção porque Márcia foi justamente uma das primeiras lideranças do PT em Pernambuco a abrir diálogo com Raquel Lyra logo após a eleição estadual. Em um momento em que boa parte do partido ainda mantinha distância do novo governo, a prefeita de Serra Talhada assumiu protagonismo nessa aproximação. A relação rendeu dividendos políticos importantes. Com o respaldo da governadora e o reconhecimento de prefeitos de diferentes regiões do Estado, Márcia conquistou a presidência da Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), tornando-se a primeira mulher da história a comandar a principal entidade representativa dos municípios pernambucanos.
O cenário, entretanto, mudou significativamente nos últimos meses. Hoje, alinhada politicamente ao projeto liderado pelo prefeito do Recife, João Campos, Márcia rompeu o eixo de proximidade que mantinha com o Palácio do Campo das Princesas. Enquanto isso, Raquel intensificou sua estratégia de fortalecimento no Sertão e passou a reunir ao seu redor praticamente todas as principais lideranças da oposição à prefeita.
O movimento mais simbólico acontece justamente neste sábado, quando o ex-prefeito Carlos Evandro oficializa seu apoio à governadora. Considerado uma das figuras mais influentes da história política recente do município, Carlos representa a última grande liderança local a deixar a órbita da prefeita para integrar o grupo estadual comandado por Raquel.
A adesão de Carlos Evandro amplia uma sequência de perdas políticas enfrentadas por Márcia Conrado. Antes dele, já haviam se aproximado da governadora o deputado estadual Luciano Duque, responsável por lançar Márcia na política ao escolhê-la como sucessora em 2020; seu filho, Miguel Duque, que disputou a Prefeitura em 2024; além dos irmãos Waldemar Oliveira e Sebastião Oliveira, principais líderes do Avante no Estado.
O rompimento com Sebastião Oliveira ganhou ainda mais repercussão após sua decisão de entregar todos os cargos que o grupo ocupava na administração municipal, encerrando uma aliança que durante anos foi considerada estratégica para a governabilidade em Serra Talhada.
Nos bastidores, a principal explicação para o desgaste entre Márcia e antigos aliados está na decisão da prefeita de concentrar esforços para viabilizar a candidatura de seu esposo, Bruno Araújo, a deputado estadual pelo PT. O projeto político passou a ser tratado como prioridade absoluta dentro do grupo governista municipal, provocando desconforto entre aliados históricos.
Sebastião Oliveira, por exemplo, esperava contar com o apoio da prefeita na disputa eleitoral deste ano, compromisso que, segundo interlocutores políticos, teria sido assumido anteriormente. A mudança de estratégia aprofundou o distanciamento entre as partes e acelerou a reorganização das alianças no município.
O afastamento de Luciano Duque, por sua vez, ocorreu ainda antes da eleição de 2022. Na época, o parlamentar afirmou publicamente que Márcia não teria cumprido compromissos políticos firmados com ele e com seu grupo, encerrando uma parceria que havia sido decisiva para a chegada da prefeita ao comando do município.
Mesmo diante da perda de aliados importantes, Márcia Conrado mantém uma base expressiva na Câmara Municipal e aposta na força administrativa da Prefeitura para impulsionar a candidatura de Bruno Araújo. O grupo acredita que a estrutura política construída ao longo dos últimos anos poderá garantir competitividade ao projeto petista nas eleições proporcionais.
Com cerca de 92 mil habitantes, segundo dados do IBGE, Serra Talhada ocupa posição estratégica no mapa político de Pernambuco. O município sempre exerceu forte influência no Sertão, sendo berço de lideranças como os ex-deputados Inocêncio Oliveira e Argemiro Pereira, nomes que marcaram época pela capacidade de articulação e pelo peso eleitoral na região.
As eleições deste ano podem recolocar Serra Talhada em posição de destaque na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Caso Bruno Araújo conquiste uma vaga, o município poderá voltar a ter ampla representação estadual, somando-se à provável tentativa de reeleição de Luciano Duque e à expectativa de retorno de Sebastião Oliveira ao Parlamento.
Nesse contexto, a visita de Raquel Lyra deixa de ser apenas uma agenda administrativa voltada à entrega de equipamentos públicos e assume contornos de demonstração de força política. Ao reunir em torno de si praticamente todas as principais lideranças oposicionistas de Serra Talhada, a governadora sinaliza que pretende consolidar uma nova maioria no município, enquanto Márcia Conrado enfrenta o desafio de preservar sua base política e impedir que o processo de esvaziamento avance ainda mais às vésperas das eleições.