Márcio Canella, deputado estadual eleito e ex-prefeito de Belford Roxo, volta a ser alvo de prisão. PF investiga suposto esquema bilionário de lavagem de dinheiro; ligação política com Flávio Bolsonaro aumenta o constrangimento em Brasília.
A política brasileira tem dessas ironias que dispensam qualquer esforço de quem escreve. Enquanto o discurso contra a corrupção costuma ser usado como bandeira eleitoral, a Polícia Federal aparece com uma investigação que coloca um aliado de Flávio Bolsonaro no centro de um caso de proporções gigantescas. O deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo, foi preso nesta quinta-feira (15), na oitava fase da Operação Unha e Carne.
A investigação apura uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro. O número que chama atenção é assustador: mais de R$ 7,6 bilhões teriam circulado pelo esquema nos últimos seis anos, segundo informações financeiras do Coaf encaminhadas à Polícia Federal.
É dinheiro demais para uma história de menos importância. E é gente demais com poder público por perto para que a sociedade aceite explicações pela metade.
O BOLSONARISMO TEM EXPLICAÇÕES A DAR?
Canella não é um nome qualquer na política fluminense. Foi prefeito, já ocupou cadeira na Assembleia Legislativa e acaba de conquistar uma votação expressiva para voltar ao Legislativo estadual. Também mantém ligação política com Flávio Bolsonaro, de quem recebeu apoio quando seu nome esteve associado a uma possível candidatura ao Senado.
A relação ganhou ainda mais visibilidade quando Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, chegou a ser cogitada para ocupar a suplência de Canella naquela articulação eleitoral.
Agora, o aliado está novamente preso, e a história deixa de ser apenas um problema local da Baixada Fluminense. Vira um constrangimento político para quem colocou sua confiança pública nesse personagem.
É preciso deixar claro: não há, nas informações apresentadas sobre esta operação, indicação de que Flávio Bolsonaro seja investigado ou tenha participado do suposto esquema. Mas a pergunta política permanece: que critérios orientam a escolha de aliados quando os palanques são montados com tanto discurso moralizador?
Na política, todo mundo quer aparecer na fotografia da vitória. Quando a Polícia Federal chega, porém, começa a disputa para saber quem estava realmente ao lado de quem.
R$ 7,6 BILHÕES E 96 POSTOS NA MIRA
A dimensão da investigação é de tirar qualquer um da zona de conforto. A Justiça determinou medidas contra 112 empresas ligadas à rede investigada, incluindo a suspensão de atividades econômicas e o sequestro de bens e valores. Segundo a PF, 96 dessas empresas são postos de combustíveis que teriam sido utilizados para camuflar e dar aparência legal a recursos de origem criminosa.
A operação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em diferentes municípios do Rio de Janeiro.
Além de Canella, foram presos Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário de Polícia Civil; os agentes Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, e Giovanni Gaspar Fernandes; Christiano Gaspar Fernandes, secretário municipal de Ordem Pública de Belford Roxo; e José Carlos Alves de Souza Júnior.
Quando uma investigação reúne cifras bilionárias, agentes públicos, políticos e uma extensa rede empresarial, não basta posar de indignado diante das câmeras. É preciso explicar, investigar e deixar a Justiça trabalhar sem interferência ou proteção de conveniência.
A POLÍTICA NÃO PODE SER UM COLETE À PROVA DE INVESTIGAÇÃO
Canella já havia sido preso em flagrante em julho, depois que um fuzil de uso restrito foi encontrado em seu carro durante uma fase anterior da Operação Unha e Carne. Na ocasião, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, revogou a prisão. O episódio também provocou repercussão política e interferiu nos planos eleitorais do parlamentar.
Agora, uma nova prisão coloca seu nome novamente no noticiário policial, em uma investigação muito mais ampla, voltada a suspeitas de lavagem de dinheiro.
Convém separar as coisas: prisão não é condenação, investigação não é prova definitiva de culpa, e todos os investigados têm direito à defesa. Mas o devido processo legal não pode ser confundido com licença para fugir das perguntas difíceis.
O que precisa ser esclarecido é a eventual participação individual de cada investigado, o caminho do dinheiro, o papel das empresas e a possível utilização de estruturas públicas ou políticas para favorecer o esquema.
E AGORA, FLÁVIO?
O senador não responde automaticamente pelos atos de um aliado. Mas quem constrói discurso nacional, cobra moralidade dos adversários e reivindica autoridade para apontar o dedo precisa entender que alianças também produzem responsabilidades políticas.
Flávio Bolsonaro pode não ser investigado neste caso, mas sua proximidade política com Canella é um fato relevante para compreender o tamanho do desgaste. O episódio oferece munição aos adversários e obriga o bolsonarismo a explicar suas escolhas sem transformar toda pergunta incômoda em perseguição política.
Afinal, combater a corrupção não pode ser uma regra aplicada apenas quando o suspeito está do outro lado do palanque.
O discurso moralizador é bonito no palanque. O teste de verdade começa quando a investigação bate à porta de casa.
O Rio de Janeiro tem agora uma apuração que envolve bilhões de reais, dezenas de empresas e suspeitas graves. A Polícia Federal precisa chegar aos fatos, a Justiça deve examinar as provas e os responsáveis, caso as acusações sejam comprovadas, precisam responder por seus atos.
E os padrinhos políticos, se quiserem preservar a própria credibilidade, terão de entender que fotografia eleitoral não é certificado de honestidade.
Na política brasileira, o problema nunca foi a falta de discurso contra a corrupção. O problema é descobrir quantos sustentam esse discurso até que a investigação alcance os próprios aliados.
Blog do Edney — A notícia verdade.