O Centrão, esse velho conhecido da política brasileira que raramente se apaixona por candidato e quase nunca perde de vista o poder, começa a dar sinais de que não pretende afundar junto com o bolsonarismo. Partidos e lideranças que caminharam com Flávio durante a campanha passaram a reconhecer a vitória de Lula. O movimento é político, calculado e revelador. Quando a urna entrega o resultado, muitos aliados descobrem rapidamente que a fidelidade tem prazo de validade.
O mais constrangedor é que até a direção nacional do próprio PL reconheceu a vitória petista, embora tenha apresentado questionamentos sobre o processo eleitoral. Flávio, por sua vez, mantém a contestação e fala em anulação do resultado. Está criada uma situação incômoda: enquanto o partido procura preservar seu espaço institucional, o senador insiste numa estratégia que não encontra adesão irrestrita nem dentro do próprio campo político.
O Centrão já entendeu o recado das urnas. A pergunta é se Flávio Bolsonaro também entendeu.
O PODER NÃO ESPERA QUEM NÃO ACEITA A DERROTA
Na política brasileira, o discurso de lealdade costuma durar até o momento em que deixa de ser conveniente. Durante a campanha, Flávio era o nome que precisava receber apoio. Depois da derrota, passou a ser também um problema que cada partido terá de avaliar antes de decidir quanto pretende se comprometer com sua estratégia.
O reconhecimento da vitória de Lula não significa que o Centrão tenha virado governista de carteirinha. Significa que seus dirigentes sabem a diferença entre fazer oposição e tentar transformar uma derrota eleitoral numa crise permanente. Querem negociar, preservar espaço no Congresso e continuar influenciando os rumos do país.
É o pragmatismo de sempre. Quando existe perspectiva de vitória, aparecem fotografias, discursos inflamados e declarações de fidelidade. Quando a conta não fecha, cada liderança começa a cuidar da própria sobrevivência.
Flávio pode até manter a retórica de enfrentamento, mas precisará responder a uma questão fundamental: quem estará disposto a acompanhá-lo se os principais partidos do centro político preferirem negociar com o governo eleito?
A POLÊMICA SOBRE A VIAGEM AUMENTA O DESGASTE
Como se o isolamento político não bastasse, as notícias sobre uma possível passagem de Flávio pela Argentina acrescentaram outro elemento à crise.
Reportagens publicadas nesta terça-feira informaram que o senador teria entrado no país vizinho e poderia seguir para os Estados Unidos em um avião particular. A informação, entretanto, não foi confirmada oficialmente. A Direção Nacional de Imigrações da Argentina declarou que não encontrou registro de entrada em nome de Flávio Nantes Bolsonaro, enquanto aliados negaram que ele tivesse deixado o Brasil.
A ausência de confirmação alimenta perguntas, mas não autoriza transformar suspeita em certeza. Não é possível afirmar que o senador fugiu do país sem comprovação. O que existe é uma controvérsia que exige esclarecimentos objetivos sobre seu paradeiro e sobre as informações divulgadas.
O caso ganhou ainda mais repercussão diante das notícias envolvendo seus passaportes e as providências atribuídas às autoridades brasileiras. É necessário acompanhar os atos oficiais e distinguir o que foi efetivamente determinado do que ainda está sendo apurado.
Politicamente, porém, o estrago já está posto: num momento em que deveria explicar sua estratégia depois da derrota, Flávio se vê no centro de uma nova polêmica, enquanto seus aliados procuram se reposicionar.
O BOLSONARISMO CORRE O RISCO DE FICAR FALANDO SOZINHO
A grande questão já não é apenas a derrota de Flávio para Lula. É saber quem terá condições de comandar a oposição daqui para a frente.
Uma oposição forte precisa de discurso, organização, apoio parlamentar e capacidade de dialogar com setores que não fazem parte de sua base mais fiel. Não basta gritar contra o resultado, atacar adversários e esperar que os aliados acompanhem tudo por obrigação.
Se o Centrão decidir manter distância da estratégia de Flávio, o senador poderá descobrir que mobilizar a militância é uma coisa e construir maioria política é outra completamente diferente.
O Congresso não funciona apenas com indignação de rede social. Funciona com votos, articulações, acordos e capacidade de reunir forças diferentes em torno de objetivos concretos. Quem perde esse jogo pode continuar fazendo barulho, mas corre o risco de perder influência.
E existe uma ironia nessa história: o mesmo campo político que durante a campanha procurou apresentar Flávio como alternativa para o país agora precisa administrar a derrota e decidir até onde vale a pena comprar suas brigas.
NA LUPA PLANTÃO: O CENTRÃO NÃO TEM SAUDADE DE DERROTADO
O movimento é duro, mas não surpreende. O Centrão raramente trata uma derrota como compromisso para a eternidade. Seus integrantes sabem que o poder muda de mãos e que a política exige adaptação.
Lula venceu e assumirá o próximo período de governo com a legitimidade conferida pelo resultado eleitoral proclamado. A oposição tem todo o direito de fiscalizar, criticar e questionar eventuais irregularidades pelos meios legais. O que não pode é substituir provas por suspeitas nem tratar a vontade popular como um resultado que só vale quando o próprio candidato vence.
Flávio Bolsonaro está diante de uma escolha: organizar uma oposição capaz de dialogar com o país real ou permanecer preso a uma contestação que pode afastar até os aliados que ainda lhe restam.
O Centrão já começou a fazer suas contas. E, pelo comportamento de suas lideranças, parece menos interessado em salvar o projeto político de Flávio do que em garantir o próprio lugar na próxima rodada de negociações.
Na política, a derrota não leva apenas votos. Às vezes, leva junto os amigos, os discursos de fidelidade e até os companheiros de fotografia.
E a pergunta que fica é simples: se nem todos os aliados do próprio partido estão dispostos a seguir Flávio nessa contestação, por que o Centrão colocaria seu futuro em jogo para comprar uma briga que não é mais sua?
Edney Souto | Blog do Edney