quarta-feira, 28 de outubro de 2026

OPINIÃO - O PAÍS QUE AMA A IMPUNIDADE: QUASE 60 MILHÕES DE VOTOS E UMA PERGUNTA QUE O BRASIL NÃO PODE IGNORAR

Por Edney Souto | Blog do Edney

O que mais assusta no Brasil não é apenas a notícia de um político que deixa o país depois de uma derrota eleitoral. O que deveria tirar o sono de qualquer cidadão é a dimensão do apoio que esse mesmo personagem recebeu nas urnas poucas horas antes. Quando quase 60 milhões de brasileiros escolhem alguém para governar a nação, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre um candidato e passa a envolver a sociedade que o colocou naquela posição.

A pergunta é incômoda, mas necessária: o Brasil está se acostumando tanto com a impunidade que já não enxerga contradição entre o discurso de ordem e o comportamento de quem pede para governar?

Flávio Bolsonaro recebeu quase 60 milhões de votos na eleição presidencial de 2026 e, dois dias depois, sua viagem aos Estados Unidos foi confirmada pela imprensa. O episódio ganhou repercussão porque, segundo a Reuters, o senador havia afirmado na véspera que não pretendia deixar o Brasil. A agência também noticiou que ele não cumpriu o prazo determinado pelo ministro Alexandre de Moraes para a entrega de seus passaportes. 

Os fatos, por si só, já exigem explicações. Mas a reflexão vai além da viagem. O que merece ser discutido é a distância entre o discurso apresentado durante uma campanha e a responsabilidade que se espera de alguém que pretende ocupar a Presidência da República.

Durante meses, o eleitor ouviu palavras como pátria, família, ordem, autoridade e respeito às leis. A bandeira brasileira foi exibida como símbolo de compromisso nacional. O patriotismo apareceu como credencial política. Depois da derrota, porém, a notícia da ida aos Estados Unidos colocou a coerência desse discurso sob questionamento.

É importante separar as coisas. Uma investigação não equivale a uma condenação, e viajar para o exterior não comprova, por si só, a intenção de fugir da Justiça. Acusações de crimes precisam ser sustentadas por provas e examinadas pelos órgãos competentes. Mas a existência dessas garantias não impede que a sociedade cobre explicações de figuras públicas, especialmente quando há decisões judiciais e declarações anteriores em discussão.

O problema brasileiro começa quando a cobrança deixa de ser um princípio e passa a depender da camisa política de quem está sendo questionado.

Se o investigado pertence ao grupo adversário, exige-se rigor absoluto. Se está do nosso lado, aparecem as justificativas, as teorias conspiratórias, a desconfiança seletiva e a tentativa de transformar qualquer questionamento em perseguição. A lei, que deveria ser uma regra comum, vira instrumento de conveniência. A indignação passa a ter partido, sobrenome e endereço.

É assim que a impunidade encontra terreno fértil: não necessariamente porque todos desejam a prática de crimes, mas porque parte da sociedade aceita relativizar a responsabilidade quando o suspeito representa suas preferências políticas.

O eleitor não precisa concordar com o Supremo Tribunal Federal. Pode criticar ministros, contestar decisões e defender mudanças na legislação. Isso faz parte da democracia. O que não deveria acontecer é a transformação da lealdade política em autorização para ignorar fatos, desprezar determinações judiciais ou tratar suspeitas como irrelevantes apenas porque envolvem alguém admirado.

O Brasil conhece bem esse mecanismo. Escândalos se sucedem, investigações ocupam as manchetes, acusações são lançadas de todos os lados e, pouco depois, a indignação é substituída por uma nova disputa. O cidadão se cansa, a memória coletiva encurta e a responsabilidade pública acaba soterrada pelo próximo conflito.

Nesse ambiente, o político aprende uma lição perigosa: não precisa necessariamente convencer todos de sua inocência; basta manter mobilizada uma parcela de seus apoiadores, alimentando a ideia de que qualquer cobrança é uma conspiração contra o grupo.

A consequência é devastadora. A política deixa de ser uma disputa sobre projetos para o país e se transforma em uma guerra de identidades, na qual admitir um erro do próprio lado passa a ser visto como traição.

Mas existe uma diferença fundamental entre defender um candidato e entregar a ele um cheque em branco. Democracia não significa suspender o senso crítico a cada eleição. Votar é escolher representantes, não renunciar à capacidade de questioná-los.

Os quase 60 milhões de votos recebidos por Flávio Bolsonaro demonstram a força eleitoral de seu projeto e a existência de uma parcela expressiva da população que se identificou com sua candidatura. Não autorizam, entretanto, concluir que todos esses eleitores conheciam as mesmas informações, compartilhavam as mesmas motivações ou aprovavam qualquer atitude posterior do candidato.

O eleitorado é diverso. Há quem vote por ideologia, por rejeição ao adversário, por identificação religiosa, por questões econômicas ou por influência familiar. Reduzir milhões de pessoas a uma única explicação seria repetir o mesmo erro que alimenta a polarização.

Ainda assim, a votação expressiva levanta uma questão legítima: quais critérios a sociedade utiliza para decidir quem merece sua confiança? Quanto pesam os fatos diante da propaganda? Até que ponto a rejeição ao adversário se torna tão forte que leva alguém a ignorar problemas do próprio candidato?

Essas perguntas não devem ser dirigidas apenas aos eleitores de Flávio Bolsonaro. Valem para qualquer partido, qualquer liderança e qualquer grupo político. O Brasil não resolverá sua crise de confiança se continuar exigindo honestidade apenas dos adversários e concedendo indulgência automática aos aliados.

O país não precisa de cidadãos que concordem uns com os outros. Precisa de cidadãos capazes de aplicar os mesmos princípios a todos. Se a lei vale para o adversário, deve valer também para o aliado. Se uma investigação merece atenção quando atinge um político de esquerda, merece atenção quando envolve um político de direita. Se uma decisão judicial pode ser criticada, também deve ser respeitada enquanto estiver em vigor, sem prejuízo dos recursos legais disponíveis.

A impunidade não nasce apenas nos tribunais. Ela também é fortalecida quando a sociedade perde a disposição de cobrar, quando os partidos protegem seus integrantes a qualquer custo e quando o eleitor transforma sua preferência política em defesa incondicional.

É nesse ponto que o debate deixa de ser sobre Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro personagem. Passa a ser sobre o tipo de país que queremos construir.

Um país sério não condena antecipadamente, mas também não fecha os olhos. Não transforma investigação em sentença, mas não trata suspeitas relevantes como se fossem assunto proibido. Não exige perfeição de seus representantes, mas cobra transparência, respeito às instituições e responsabilidade diante da população.

O Brasil não pode continuar confundindo fidelidade partidária com licença moral. Nenhum candidato está acima da lei, assim como nenhum adversário está autorizado a condenar alguém sem provas. O equilíbrio entre esses dois princípios é justamente o que separa uma democracia madura de uma sociedade dominada pela paixão política.

No fim, a pergunta mais importante não é por que milhões de pessoas votaram em determinado candidato. É o que cada uma de nós está disposta a aceitar em nome de uma vitória eleitoral.

Se o patriotismo só vale quando o nosso lado vence, não é patriotismo: é conveniência. Se a indignação desaparece quando o investigado é um aliado, não é compromisso com a justiça: é seletividade. E se a democracia só merece respeito quando entrega o resultado desejado, o problema é muito maior do que qualquer disputa presidencial.

O país que tolera tudo de seus próprios líderes não está apenas escolhendo representantes. Está ensinando a eles até onde podem ir sem prestar contas.

A história não registra somente os votos depositados nas urnas. Registra também as escolhas feitas depois, as explicações exigidas — ou dispensadas — e os princípios que uma sociedade decidiu preservar.

O Brasil precisa decidir se quer continuar alimentando a cultura do privilégio ou se está disposto a exigir de todos, sem distinção de partido, sobrenome ou popularidade, a mesma responsabilidade diante da lei.

Porque a democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta desrespeitar suas regras. Ela também se enfraquece quando a sociedade decide que essas regras só devem valer para os outros.

Edney Souto

Blog do Edney — A notícia verdade. Você atualizado o tempo todo.

TARCÍSIO RECUA, RECONHECE A VITÓRIA DE LULA E PREGA UNIÃO DA OPOSIÇÃO. O CENTRÃO JÁ ENTENDEU O RECADO!

O discurso mudou, o tom baixou e a realidade das urnas começou a falar mais alto. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), sinalizou o reconhecimento da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial, após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL). Aliado do senador e apontado como um dos principais nomes da direita para o futuro, Tarcísio optou por um caminho bem diferente do discurso de contestação adotado por integrantes do bolsonarismo.

Em vídeo publicado nas redes sociais nesta terça-feira (27), o governador defendeu a união da oposição para fiscalizar o novo governo e destacou o papel do Congresso Nacional na construção de um ambiente de pacificação política. Também agradeceu às pessoas que se mobilizaram na campanha de Flávio, mas evitou embarcar em questionamentos sobre o resultado eleitoral.

Nos bastidores, a avaliação é de que Tarcísio decidiu não comprar uma briga contra as urnas nem alimentar discursos mais radicais. A estratégia é preservar seu espaço político, manter pontes institucionais e não ficar amarrado a uma disputa que terminou com a vitória de Lula. Desde a divulgação do resultado, o governador ainda não havia feito um pronunciamento público sobre a eleição.

Tarcísio voltou a São Paulo na segunda-feira (26), depois de se reunir em Brasília com Flávio Bolsonaro para acompanhar a apuração. O encontro não impediu que, no dia seguinte, o governador adotasse uma postura de maior cautela, justamente quando o ambiente político começou a mostrar sinais de afastamento em relação às tentativas de contestação do resultado.

O vice-governador paulista, Felício Ramuth (MDB), já havia dado o tom na segunda-feira ao declarar respeito à decisão dos eleitores e reconhecer que “a maioria dos eleitores escolheu outro caminho”. A fala contrastou com a postura de Flávio Bolsonaro, que chegou a pedir a anulação do segundo turno e anunciou a intenção de recorrer à Justiça para tentar cassar a chapa vencedora.

Outro sinal veio do próprio partido de Tarcísio. No domingo (25), o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, parabenizou Lula pela vitória e ressaltou que o presidente eleito tem a responsabilidade de governar para todos os brasileiros, com diálogo e interlocução com o Congresso Nacional.

A movimentação revela uma realidade conhecida da política brasileira: depois da eleição, começa a reorganização das forças. O discurso de campanha cede espaço aos cálculos de sobrevivência, às alianças e à disputa por influência no próximo governo.

Tarcísio sabe que seu futuro político não depende de permanecer preso às decisões de Flávio Bolsonaro. Com projeção nacional e ambições que ultrapassam o Palácio dos Bandeirantes, o governador precisa conversar com diferentes setores, preservar sua relação com o Congresso e evitar que a radicalização comprometa seus próximos passos.

Na política, o ditado continua atual: rei morto, rei posto. A derrota de Flávio muda o tabuleiro da direita, e os movimentos de seus aliados indicam que ninguém pretende ficar parado esperando a poeira baixar.

A pergunta agora é outra: Tarcísio conseguirá se firmar como uma liderança da oposição sem romper definitivamente com o bolsonarismo? Ou a necessidade de se manter competitivo nacionalmente falará mais alto do que a lealdade ao grupo que o ajudou a chegar ao poder?

NA LUPA: quando a eleição termina, cada liderança precisa decidir se continuará disputando o resultado ou se começará a construir o próximo capítulo. Tarcísio parece ter escolhido a segunda opção. E, em Brasília, todos sabem que reconhecer a realidade das urnas também é uma forma de fazer política.

GARANHUNS PARTICIPA DA XXI SEMANA NACIONAL DA CONCILIAÇÃO

Audiências de conciliação, ações de cidadania e atendimentos da Defensoria Pública da União integram as atividades

De 3 a 6 de novembro, o município de Garanhuns participa da XXI Semana Nacional da Conciliação. Durante o período, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (SASDH), por meio da Casa de Justiça e Cidadania de Garanhuns, com o apoio do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), oferecerá audiências de conciliação, orientações jurídicas e uma ação de cidadania. A programação contará também com atendimentos da Defensoria Pública da União (DPU) voltados aos benefícios previdenciários e assistenciais, acesso a medicamentos e outros direitos.

A programação terá início no dia 3, às 9h, com o encontro “Café com Justiça e Cidadania”, na sede da CJC. Voltada a representantes da rede de atendimento e parceiros institucionais, a atividade contará com a participação da juíza coordenadora do Cejusc, Maria Betânia Rolim. No dia 4, das 8h às 15h, a comunidade Massaranduba receberá uma Ação de Cidadania, na Igreja do Pastor Miguel. A iniciativa contará com a participação de setores da SASDH, da Secretaria de Saúde e de instituições parceiras. Durante todo o período, haverá intensificação das audiências de conciliação. 

DPU em Garanhuns - O município também contará com a presença da Defensoria Pública da União (DPU), com atendimento a demandas relacionadas a benefícios previdenciários e assistenciais, como aposentadorias, auxílio-doença, pensão por morte e BPC/Loas, além de questões envolvendo Bolsa Família, acesso a medicamentos de alto custo pelo SUS, Fies, programas habitacionais da Caixa Econômica Federal, entre outras áreas de atuação do órgão.

Artes: Anderson Carlos

ARTIGO - A HISTÓRIA NÃO PERDOA OS COVARDES, NEM ESQUECE OS CORAJOSOS: LULA VOLTOU PELAS URNAS, FLÁVIO FOI PARA OS EUA APÓS A DERROTA

Por Edney Souto | Blog do Edney

A política tem uma memória que incomoda. O poder muda de mãos, os aliados trocam de lado, os discursos perdem a validade e aquilo que ontem era apresentado como uma demonstração de patriotismo pode se transformar, no dia seguinte, em uma pergunta incômoda. É justamente nesses momentos que a história começa a separar o discurso da atitude.

Lula enfrentou a prisão, atravessou um dos períodos mais difíceis de sua trajetória política, recuperou seus direitos políticos e voltou às urnas. Em 2022, derrotou Jair Bolsonaro. Em 2026, enfrentou novamente uma disputa presidencial, desta vez contra Flávio Bolsonaro, e conquistou mais uma vitória. No domingo, 25 de outubro, recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de seu adversário, que alcançou 48,21%. A diferença foi superior a 4,4 milhões de votos. 

É um percurso que pode ser discutido, criticado e questionado em diferentes aspectos, mas que contém um dado político incontestável: Lula voltou a se apresentar aos eleitores e submeteu seu destino à decisão das urnas. Depois de ter sido preso em 2018, teve suas condenações da Justiça Federal de Curitiba anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, por questões de competência, e recuperou a elegibilidade. Em vez de abandonar a disputa política, voltou a pedir votos e venceu duas eleições presidenciais consecutivas, em 2022 e 2026.

Do outro lado, o resultado eleitoral produziu uma cena que entrou imediatamente para o debate nacional. Flávio Bolsonaro, senador e candidato derrotado à Presidência, viajou para os Estados Unidos na terça-feira, 27 de outubro, menos de 48 horas depois da eleição. A informação foi confirmada à Reuters por um aliado próximo do parlamentar e por uma fonte do governo norte-americano. Segundo o relato, ele chegou à Flórida.

O episódio ganhou ainda mais repercussão porque, na véspera, Flávio havia afirmado que não pensava em deixar o Brasil. A reportagem da Reuters informou também que o senador não cumpriu o prazo estabelecido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para entregar seus passaportes à Polícia Federal. A decisão judicial citava risco de fuga e o poder econômico dos envolvidos no contexto da medida. 

A sequência dos acontecimentos é o que torna a história politicamente explosiva. Primeiro, a campanha. Depois, a derrota. Em seguida, a declaração de que não sairia do país. E, por fim, a confirmação da viagem para os Estados Unidos.

Não é necessário inventar fatos para compreender o tamanho do desgaste político. Basta colocar as declarações e os acontecimentos lado a lado.

Durante a campanha, o discurso patriótico ocupou espaço importante na disputa. A bandeira brasileira, o amor à pátria e a defesa dos interesses nacionais foram apresentados como elementos centrais do projeto político bolsonarista. Milhões de brasileiros confiaram nesse discurso e depositaram seus votos em Flávio Bolsonaro. O candidato terminou a eleição com quase 60 milhões de votos, uma votação expressiva que lhe confere representatividade política e uma responsabilidade proporcional diante de seus eleitores.

Mas a pergunta permanece: o que significa defender o Brasil quando o resultado das urnas não corresponde àquilo que se desejava?

Viajar para outro país não é, por si só, prova de culpa ou covardia. Todo cidadão tem direitos, e qualquer medida judicial deve ser cumprida e discutida pelos meios legais. O problema político está na contradição entre uma declaração pública de que não deixaria o Brasil e a posterior confirmação de sua saída, especialmente em um momento de tensão institucional e questionamentos sobre o resultado eleitoral.

Quem pede votos em nome da pátria precisa compreender que o compromisso com o eleitor não termina no fechamento das urnas. A responsabilidade pública continua depois da derrota, quando não existem mais palanques para sustentar o discurso e quando as promessas precisam ser confrontadas com a realidade.

O episódio também provocou uma reação direta de Lula. Na terça-feira, dia em que completou 81 anos, o presidente classificou a saída de Flávio como um ato vergonhoso e afirmou que o senador deveria permanecer no Brasil para responder às questões que envolvem seu nome. A declaração foi publicada pela Reuters. 

A viagem ainda expôs dificuldades dentro do próprio campo bolsonarista. Segundo a Reuters, o senador Rogério Marinho, coordenador-geral da campanha de Flávio, declarou que estava surpreso e que não sabia onde o candidato se encontrava. Marinho afirmou que esperava que o senador assumisse o papel de liderança da oposição, considerando a expressiva votação recebida. Um aliado informou à agência que Flávio pretendia dar um tempo. 

É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre uma viagem internacional e passa a envolver o futuro da oposição brasileira. Quase 60 milhões de votos não são propriedade de uma família, nem autorização para transformar um projeto político em patrimônio particular. São votos de cidadãos que esperam representação, posicionamento e responsabilidade.

Flávio ainda não havia reconhecido oficialmente a derrota quando a Reuters publicou a notícia da viagem. Segundo a agência, ele havia falado em buscar a anulação do resultado e, posteriormente, em pedir a cassação da chapa de Lula ao Tribunal Superior Eleitoral. Na segunda-feira, 26 de outubro, o Partido Liberal declarou reconhecer a vitória do petista. 

Enquanto isso, Lula se preparava para iniciar um novo mandato, conquistado democraticamente, com uma votação superior à que recebeu em 2022. A disputa de 2026 também entrou para a história por garantir ao petista um quarto mandato presidencial, feito inédito no país. 

É impossível olhar para essas duas trajetórias recentes sem perceber o contraste político. Lula foi preso, perdeu temporariamente seus direitos políticos, recuperou a elegibilidade e voltou a disputar a Presidência. Flávio Bolsonaro pediu votos, foi derrotado e, poucos dias depois, teve sua ida aos Estados Unidos confirmada por fontes ouvidas pela imprensa internacional.

A comparação não apaga as diferenças entre os casos nem dispensa a análise jurídica de cada situação. Mas permite uma reflexão sobre liderança, responsabilidade e coerência. Na política, coragem não significa concordar com decisões judiciais ou aceitar passivamente críticas. Significa enfrentar as consequências dos próprios atos dentro das regras democráticas, sem transformar a dificuldade em motivo para abandonar as responsabilidades assumidas diante do eleitor.

A família Bolsonaro conhece esse roteiro. Depois da derrota de Jair Bolsonaro para Lula em 2022, o então presidente viajou para os Estados Unidos antes do fim de seu mandato e retornou posteriormente ao Brasil. Anos depois, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na trama golpista, decisão que pertence a um processo distinto dos fatos relacionados à viagem de Flávio. A repetição de episódios de afastamento do país após derrotas eleitorais inevitavelmente alimenta o debate público sobre como a família lida com os resultados das urnas. 

O patriotismo não pode ser tratado como um figurino que se veste durante a campanha e se guarda quando a realidade muda. A bandeira brasileira não deveria servir apenas como cenário para discursos, assim como o amor à nação não deveria ser utilizado somente como instrumento de mobilização eleitoral.

O Brasil precisa de lideranças que entendam que a democracia não funciona apenas quando o resultado agrada. O direito de contestar decisões existe, desde que exercido pelos meios legais. A oposição é necessária, os milhões de eleitores de Flávio merecem representação e o país não pode reduzir uma disputa tão expressiva a uma guerra permanente entre famílias políticas.

Mas a responsabilidade também precisa ter endereço. Quem se apresenta como alternativa para governar o país precisa estar disposto a responder pelas próprias decisões, inclusive quando perde. A vitória traz prestígio; a derrota exige maturidade. E nenhuma das duas elimina o dever de prestar contas à sociedade.

Na política, o ditado continua atual: rei morto, rei posto. Quando o poder muda de mãos, muitos dos que ontem juravam fidelidade começam a procurar novos caminhos. Os discursos mudam, as alianças se reorganizam e a fotografia do passado passa a incomodar aqueles que preferem esquecer o que disseram.

Só que existe uma diferença entre adaptar estratégias e abandonar responsabilidades. A primeira é parte do jogo político. A segunda pode comprometer a confiança pública.

A história não se escreve apenas com os nomes dos vencedores. Também registra os gestos de quem permaneceu, as decisões de quem enfrentou as consequências e as contradições de quem prometeu uma coisa e fez outra.

Lula voltou às urnas e venceu novamente. Flávio Bolsonaro, depois de perder a eleição e afirmar que não deixaria o país, teve sua viagem aos Estados Unidos confirmada. São fatos que ajudam a compreender o momento político brasileiro e que continuarão a ser discutidos muito depois de encerrada a apuração.

A história não perdoa nem os covardes, nem esquece os corajosos. A frase não precisa ser uma sentença antecipada sobre ninguém. É um alerta para toda liderança que confunde discurso com compromisso e aplauso com legitimidade permanente.

O poder passa. Os cargos acabam. As alianças se desfazem. Mas as palavras pronunciadas diante do eleitor permanecem registradas, assim como as atitudes tomadas quando chega a hora de demonstrar coerência.

No fim, não é a quantidade de bandeiras levantadas em uma campanha que determina a dimensão de um compromisso com o Brasil. É aquilo que cada liderança faz quando os votos são contados, o resultado é conhecido e o país espera que seus representantes assumam as consequências de suas escolhas.

Porque o verdadeiro teste de uma liderança não acontece somente quando ela pede votos. Acontece, sobretudo, quando o resultado não vem como esperado.

Edney Souto

FLÁVIO BOLSONARO SAI DO BRASIL APÓS DERROTA PARA LULA, E COMBOIO DE CARROS PRETOS LEVANTA SUSPEITAS EM BRASÍLIA

Senador foi para os Estados Unidos depois de afirmar que permaneceria no país para liderar a oposição. Na véspera, quatro veículos deixaram sua residência e despistaram equipes de reportagem.
A derrota nas urnas foi seguida por uma reviravolta que colocou Flávio Bolsonaro (PL) no centro de uma crise política. Depois de afirmar que não deixaria o Brasil e que entregaria seus passaportes à Polícia Federal, o senador seguiu para os Estados Unidos, conforme informações confirmadas por um aliado e por fontes do governo norte-americano à Reuters. A viagem ocorreu após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial. 

Na noite da última segunda-feira (26), quatro carros pretos ligados ao parlamentar deixaram sua residência no Residencial Ouro Branco, no Lago Sul, em Brasília, por volta das 19h40. A movimentação foi acompanhada por equipes de reportagem, que tentaram seguir o comboio.

Em um dos veículos, os jornalistas identificaram Fernanda Bolsonaro, esposa do senador. No primeiro carro, que liderava o grupo, não havia ninguém no banco traseiro. Na altura da Ponte JK, os automóveis se dividiram e seguiram por caminhos diferentes, dificultando o acompanhamento da imprensa.

Naquela noite, não foi possível confirmar se Flávio estava em algum dos carros. No dia seguinte, porém, a informação de que ele havia deixado o país ganhou força e foi confirmada por fontes ouvidas pela imprensa internacional.

PROMETEU FICAR, MAS FOI PARA OS EUA

A viagem chamou atenção porque, na segunda-feira, Flávio havia declarado publicamente que não pretendia deixar o Brasil. Em vídeo divulgado nas redes sociais, afirmou que entregaria os passaportes e que se prepararia para liderar a oposição ao governo Lula.

Na terça-feira (27), a Reuters informou que um aliado próximo do senador confirmou sua ida aos Estados Unidos. Uma fonte do governo norte-americano também confirmou a viagem, enquanto outra pessoa próxima à família afirmou que ele havia chegado à Flórida.

A mudança de planos ocorreu em meio à pressão judicial e à derrota eleitoral. A saída do país passou a ser questionada porque o senador tinha recebido uma determinação para entregar seus documentos de viagem.

PASSAPORTES CANCELADOS E INVESTIGAÇÃO

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que Flávio entregasse os passaportes à Polícia Federal dentro do prazo estabelecido. Como os documentos não foram entregues, a corporação cancelou o passaporte comum e o diplomático, segundo informações divulgadas pela Reuters e pela CNN Brasil.

A decisão foi relacionada a uma investigação que envolve suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O advogado Willer Tomaz também é investigado no caso. Ambos negam irregularidades.

A ida aos Estados Unidos, portanto, ocorreu em um momento de questionamentos sobre o cumprimento da determinação judicial. A viagem foi confirmada por fontes, mas os detalhes completos da rota e das circunstâncias da saída do Brasil não foram esclarecidos publicamente pelas autoridades brasileiras.

TRUMP ABRE AS PORTAS PARA A FAMÍLIA

O governo de Donald Trump informou que emitirá vistos para Flávio Bolsonaro e seus familiares e permitirá a entrada deles nos Estados Unidos, segundo um alto funcionário do Departamento de Estado ouvido pela CNN Brasil. A medida não significa, por si só, que tenha sido concedido asilo político ao senador. 

A possibilidade de um pedido de asilo chegou a ser mencionada em reportagens, mas não havia confirmação oficial de que o procedimento tivesse sido formalizado.

A saída de Flávio também provocou repercussão entre aliados do próprio PL. Integrantes da campanha esperavam que o senador permanecesse no Brasil para organizar a oposição, e alguns disseram ter sido surpreendidos pela notícia de sua viagem. 

No fim das contas, o episódio reuniu três acontecimentos que passaram a marcar o pós-eleição: a derrota para Lula, o descumprimento do prazo para entrega dos passaportes e a ida para os Estados Unidos.

Flávio deixou o país depois de declarar que ficaria. O comboio da noite anterior alimentou as dúvidas sobre a movimentação em Brasília, e a confirmação da viagem transformou o caso em mais um foco de tensão entre o senador, as instituições brasileiras e o governo norte-americano.

MORRE AOS 83 ANOS EDUARDO PAES MENDONÇA, EMPRESÁRIO QUE TRANSFORMOU DIFICULDADES EM LEGADO DE SOLIDARIEDADE

Irmão de João Carlos Paes Mendonça, empresário construiu trajetória própria nos negócios, marcou o setor gráfico pernambucano e criou uma iniciativa de acolhimento para famílias de pacientes com fissura labiopalatina.

O mundo empresarial pernambucano perdeu, nesta terça-feira (27), um de seus nomes de destaque. Morreu, no Recife, aos 83 anos, o empresário Eduardo Paes Mendonça, sergipano que fez de Pernambuco sua terra de trabalho, de negócios e de construção de um legado que ultrapassou as fronteiras do mundo empresarial.

Irmão de João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM, Eduardo construiu uma história própria, marcada pela capacidade de empreender, pela disposição para enfrentar dificuldades e por uma visão de negócios que o levou a atuar em diferentes setores da economia. Mas foi fora das empresas que deixou uma de suas marcas mais humanas: a criação de uma estrutura de acolhimento para famílias que precisam viajar ao Recife em busca de tratamento especializado.

O velório será realizado nesta quarta-feira (28), a partir das 10h, no cemitério Morada da Paz, em Paulista. A missa está prevista para as 14h, seguida da cerimônia de cremação, às 15h. As informações são do Jornal do Commercio.

UMA TRAJETÓRIA CONSTRUÍDA COM TRABALHO

A história de Eduardo começou longe dos grandes centros empresariais. Nascido na Serra do Machado, distrito de Ribeirópolis, em Sergipe, ele cresceu em uma família trabalhadora, liderada por Pedro Paes Mendonça e Maria Dudu. Desde cedo, aprendeu que os negócios exigiam dedicação, disciplina e disposição para recomeçar.

Em 1959, quando um incêndio destruiu o armazém que sustentava a família, Eduardo se uniu aos irmãos João Carlos e José Américo para ajudar o pai a reconstruir o patrimônio. Aos 16 anos, estudava Contabilidade à noite e trabalhava durante o dia, embalando mercadorias e organizando produtos.

A confiança conquistada dentro de casa logo se transformou em responsabilidades maiores. Ainda adolescente, passou a administrar lojas, cuidar da distribuição de produtos e participar diretamente das atividades comerciais da família. Aos 19 anos, assumiu a gerência de uma usina de beneficiamento de arroz e farinha de milho, em Propriá, experiência que consolidou sua formação como empresário.

Anos depois, Pernambuco se tornaria o principal cenário de sua atuação profissional.

DO BOMPREÇO À INTERGRAF

Eduardo trabalhou na rede Bompreço, onde acompanhou de perto a operação da empresa e assumiu responsabilidades que iam da central de distribuição à segurança, às compras, às embalagens, às obras e à gestão de veículos. Permaneceu no grupo até a venda total da rede aos holandeses, encerrando aquele ciclo ao lado do irmão João Carlos.

Mas Eduardo não era homem de ficar parado. Durante o processo de venda, adquiriu a Gráfica JC, ligada ao Jornal do Commercio, e transformou uma estrutura que enfrentava dificuldades em um empreendimento competitivo. À frente da empresa, que passou a se chamar Intergraf, investiu em modernização e levou o negócio a um novo patamar tecnológico.

A gráfica se tornou pioneira em Pernambuco na impressão de folha inteira em quatro cores e conquistou a certificação ISO 9001. Em pouco tempo, passou a disputar espaço com a Gráfica Santa Marta, então uma das referências do mercado.

Depois de dez anos no setor, Eduardo decidiu encerrar sua participação. Insatisfeito com práticas comerciais que considerava incompatíveis com seus princípios, optou por desativar a empresa em vez de vendê-la. Uma decisão que traduzia uma característica de sua trajetória: os resultados financeiros tinham importância, mas não estavam acima de seus valores.

NEGÓCIOS, SHOPPINGS E A FORÇA DA FAMÍLIA

A atuação empresarial também passou pela Wolk Elevadores. Eduardo ampliou a presença da companhia no mercado e firmou uma parceria com a Hyundai para distribuição e manutenção de elevadores da fabricante no Brasil, antes de se desfazer do negócio.

Nos últimos anos, concentrou suas atividades na Emel Investment, holding voltada aos empreendimentos imobiliários e shopping centers. Ao lado dos filhos, manteve participação em diferentes negócios, incluindo empreendimentos ligados aos shoppings Recife, Tacaruna, Guararapes, RioMar Recife, RioMar Fortaleza, RioMar Presidente Kennedy e Salvador Shopping.

A família também possuía participações em negócios herdados dos pais e em uma empresa de investimentos no mercado internacional.

Na estrutura familiar, Danielle assumiu responsabilidades administrativas e financeiras, Eduardo Filho ficou à frente da operação e Viviane, residente em São Paulo, permaneceu como acionista.

A DOR QUE VIROU SOLIDARIEDADE

A dimensão mais sensível da história de Eduardo Paes Mendonça está na luta pessoal que enfrentou durante décadas. Ele nasceu com uma fissura submucosa no palato, condição que só foi diagnosticada quando tinha 69 anos. Desde a infância, conviveu com dificuldades na fala, passou por avaliações médicas e chegou a ser submetido a procedimentos que não resolveram o problema.

A busca por respostas atravessou boa parte de sua vida. Em 2012, quando já havia recebido o diagnóstico de doença de Parkinson, decidiu enfrentar também a possibilidade de corrigir a fissura. O tratamento envolveu cirurgias, complicações e novas intervenções em 2013 e 2014. Nesse período, também passou por duas pontes de safena e uma mamária.

O resultado não foi o esperado. Ainda assim, Eduardo não permitiu que a experiência terminasse apenas como uma batalha pessoal.

Ao compreender as dificuldades enfrentadas por quem convive com a fissura labiopalatina, decidiu transformar sua vivência em uma iniciativa de apoio a outras pessoas. Foi assim que nasceu a Casa Sorrir, inaugurada em 2017, vinculada ao Instituto José Eduardo Mendonça, formalizado em janeiro de 2018.

A instituição foi criada para acolher pacientes e familiares que chegam ao Recife em busca de tratamento especializado, especialmente aqueles atendidos pelo Centro de Atenção aos Defeitos da Face (Cadefi), do Imip. Muitos vêm do interior de Pernambuco e de outros estados, sem condições financeiras para custear uma longa permanência na capital.

A Casa Sorrir foi concebida para oferecer mais do que hospedagem durante o tratamento. A proposta inclui apoio às famílias, acesso à educação, capacitação e oportunidades para reconstruir a vida.

Foi uma resposta concreta a uma dificuldade que Eduardo conhecia de perto. Em vez de guardar para si a experiência, ele decidiu abrir caminhos para quem enfrentava situação semelhante

UM HOMEM QUE NÃO ESCONDIA OS ERROS

Em suas memórias, Eduardo tratava os acertos com naturalidade, mas atribuía especial importância aos erros. Considerava que as experiências malsucedidas poderiam ensinar muito às novas gerações de empreendedores, sobretudo quando envolviam decisões tomadas sem o devido estudo sobre o negócio.

Defendia que gostar da atividade e trabalhar duro eram condições importantes, mas insuficientes para garantir o sucesso. Ética, credibilidade, respeito aos clientes, fornecedores e parceiros e um ambiente saudável de trabalho também faziam parte da equação.

Entre seus conselhos, a humildade ocupava lugar especial, principalmente nas empresas familiares, onde a convivência entre parentes pode se tornar um desafio tão grande quanto a própria gestão.

A FAMÍLIA, AS RAÍZES E AS MEMÓRIAS

A vida de Eduardo também foi marcada pela ligação com suas origens e pela importância dos laços familiares. Casado com Ana Maria Santa Rita, deixa esposa, três filhos, cinco netos e os irmãos João Carlos Paes Mendonça, José Américo Mendonça, Reginaldo Paes Mendonça, Maria Mendonça, Ester Mendonça Ferreira, Josefa Cecinha Mendonça e Joseilde Mendonça Prado.

O irmão João Carlos fez questão de destacar a dimensão humana da perda. “Perdemos um irmão querido. Uma pessoa exemplar. Um homem de muitos amigos e de uma leveza que agregava as pessoas em torno dele”, afirmou, ao recordar também sua atuação no Bompreço e a confiança que conquistou entre os colegas.

Durante a pandemia, Eduardo passou a revisitar episódios de sua vida e transformou lembranças em livros. Escreveu A pedra do meu caminho, em primeira pessoa, e O dito e o não dito, em terceira pessoa, registrando experiências, dificuldades, conquistas e aprendizados.

O que começou como uma forma de ocupar o tempo acabou se tornando uma maneira de preservar sua história e transmiti-la às próximas gerações.

Eduardo Paes Mendonça deixa uma trajetória que não cabe apenas na lista de empresas das quais participou ou nos empreendimentos em que investiu. Sua história reúne trabalho, coragem para recomeçar, respeito aos próprios princípios e a capacidade de transformar uma dor pessoal em oportunidade de acolher outras famílias.

No mundo dos negócios, construiu seu caminho. Na vida, deixou uma lição que vai além de qualquer patrimônio: o verdadeiro legado de uma pessoa também se mede pelas vidas que ela ajuda a transformar.

Edney Souto | Blog do Edney

MORRE AOS 83 ANOS EDUARDO PAES MENDONÇA, EMPRESÁRIO QUE TRANSFORMOU DIFICULDADES EM LEGADO DE SOLIDARIEDADE

Irmão de João Carlos Paes Mendonça, empresário construiu trajetória própria nos negócios, marcou o setor gráfico pernambucano e criou uma iniciativa de acolhimento para famílias de pacientes com fissura labiopalatina.

O mundo empresarial pernambucano perdeu, nesta terça-feira (27), um de seus nomes de destaque. Morreu, no Recife, aos 83 anos, o empresário Eduardo Paes Mendonça, sergipano que fez de Pernambuco sua terra de trabalho, de negócios e de construção de um legado que ultrapassou as fronteiras do mundo empresarial.

Irmão de João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM, Eduardo construiu uma história própria, marcada pela capacidade de empreender, pela disposição para enfrentar dificuldades e por uma visão de negócios que o levou a atuar em diferentes setores da economia. Mas foi fora das empresas que deixou uma de suas marcas mais humanas: a criação de uma estrutura de acolhimento para famílias que precisam viajar ao Recife em busca de tratamento especializado.

O velório será realizado nesta quarta-feira (28), a partir das 10h, no cemitério Morada da Paz, em Paulista. A missa está prevista para as 14h, seguida da cerimônia de cremação, às 15h. As informações são do Jornal do Commercio.

UMA TRAJETÓRIA CONSTRUÍDA COM TRABALHO

A história de Eduardo começou longe dos grandes centros empresariais. Nascido na Serra do Machado, distrito de Ribeirópolis, em Sergipe, ele cresceu em uma família trabalhadora, liderada por Pedro Paes Mendonça e Maria Dudu. Desde cedo, aprendeu que os negócios exigiam dedicação, disciplina e disposição para recomeçar.

Em 1959, quando um incêndio destruiu o armazém que sustentava a família, Eduardo se uniu aos irmãos João Carlos e José Américo para ajudar o pai a reconstruir o patrimônio. Aos 16 anos, estudava Contabilidade à noite e trabalhava durante o dia, embalando mercadorias e organizando produtos.

A confiança conquistada dentro de casa logo se transformou em responsabilidades maiores. Ainda adolescente, passou a administrar lojas, cuidar da distribuição de produtos e participar diretamente das atividades comerciais da família. Aos 19 anos, assumiu a gerência de uma usina de beneficiamento de arroz e farinha de milho, em Propriá, experiência que consolidou sua formação como empresário.

Anos depois, Pernambuco se tornaria o principal cenário de sua atuação profissional.

DO BOMPREÇO À INTERGRAF

Eduardo trabalhou na rede Bompreço, onde acompanhou de perto a operação da empresa e assumiu responsabilidades que iam da central de distribuição à segurança, às compras, às embalagens, às obras e à gestão de veículos. Permaneceu no grupo até a venda total da rede aos holandeses, encerrando aquele ciclo ao lado do irmão João Carlos.

Mas Eduardo não era homem de ficar parado. Durante o processo de venda, adquiriu a Gráfica JC, ligada ao Jornal do Commercio, e transformou uma estrutura que enfrentava dificuldades em um empreendimento competitivo. À frente da empresa, que passou a se chamar Intergraf, investiu em modernização e levou o negócio a um novo patamar tecnológico.

A gráfica se tornou pioneira em Pernambuco na impressão de folha inteira em quatro cores e conquistou a certificação ISO 9001. Em pouco tempo, passou a disputar espaço com a Gráfica Santa Marta, então uma das referências do mercado.

Depois de dez anos no setor, Eduardo decidiu encerrar sua participação. Insatisfeito com práticas comerciais que considerava incompatíveis com seus princípios, optou por desativar a empresa em vez de vendê-la. Uma decisão que traduzia uma característica de sua trajetória: os resultados financeiros tinham importância, mas não estavam acima de seus valores.

NEGÓCIOS, SHOPPINGS E A FORÇA DA FAMÍLIA

A atuação empresarial também passou pela Wolk Elevadores. Eduardo ampliou a presença da companhia no mercado e firmou uma parceria com a Hyundai para distribuição e manutenção de elevadores da fabricante no Brasil, antes de se desfazer do negócio.

Nos últimos anos, concentrou suas atividades na Emel Investment, holding voltada aos empreendimentos imobiliários e shopping centers. Ao lado dos filhos, manteve participação em diferentes negócios, incluindo empreendimentos ligados aos shoppings Recife, Tacaruna, Guararapes, RioMar Recife, RioMar Fortaleza, RioMar Presidente Kennedy e Salvador Shopping.

A família também possuía participações em negócios herdados dos pais e em uma empresa de investimentos no mercado internacional.

Na estrutura familiar, Danielle assumiu responsabilidades administrativas e financeiras, Eduardo Filho ficou à frente da operação e Viviane, residente em São Paulo, permaneceu como acionista.

A DOR QUE VIROU SOLIDARIEDADE

A dimensão mais sensível da história de Eduardo Paes Mendonça está na luta pessoal que enfrentou durante décadas. Ele nasceu com uma fissura submucosa no palato, condição que só foi diagnosticada quando tinha 69 anos. Desde a infância, conviveu com dificuldades na fala, passou por avaliações médicas e chegou a ser submetido a procedimentos que não resolveram o problema.

A busca por respostas atravessou boa parte de sua vida. Em 2012, quando já havia recebido o diagnóstico de doença de Parkinson, decidiu enfrentar também a possibilidade de corrigir a fissura. O tratamento envolveu cirurgias, complicações e novas intervenções em 2013 e 2014. Nesse período, também passou por duas pontes de safena e uma mamária.

O resultado não foi o esperado. Ainda assim, Eduardo não permitiu que a experiência terminasse apenas como uma batalha pessoal.

Ao compreender as dificuldades enfrentadas por quem convive com a fissura labiopalatina, decidiu transformar sua vivência em uma iniciativa de apoio a outras pessoas. Foi assim que nasceu a Casa Sorrir, inaugurada em 2017, vinculada ao Instituto José Eduardo Mendonça, formalizado em janeiro de 2018.

A instituição foi criada para acolher pacientes e familiares que chegam ao Recife em busca de tratamento especializado, especialmente aqueles atendidos pelo Centro de Atenção aos Defeitos da Face (Cadefi), do Imip. Muitos vêm do interior de Pernambuco e de outros estados, sem condições financeiras para custear uma longa permanência na capital.

A Casa Sorrir foi concebida para oferecer mais do que hospedagem durante o tratamento. A proposta inclui apoio às famílias, acesso à educação, capacitação e oportunidades para reconstruir a vida.

Foi uma resposta concreta a uma dificuldade que Eduardo conhecia de perto. Em vez de guardar para si a experiência, ele decidiu abrir caminhos para quem enfrentava situação semelhante

UM HOMEM QUE NÃO ESCONDIA OS ERROS

Em suas memórias, Eduardo tratava os acertos com naturalidade, mas atribuía especial importância aos erros. Considerava que as experiências malsucedidas poderiam ensinar muito às novas gerações de empreendedores, sobretudo quando envolviam decisões tomadas sem o devido estudo sobre o negócio.

Defendia que gostar da atividade e trabalhar duro eram condições importantes, mas insuficientes para garantir o sucesso. Ética, credibilidade, respeito aos clientes, fornecedores e parceiros e um ambiente saudável de trabalho também faziam parte da equação.

Entre seus conselhos, a humildade ocupava lugar especial, principalmente nas empresas familiares, onde a convivência entre parentes pode se tornar um desafio tão grande quanto a própria gestão.

A FAMÍLIA, AS RAÍZES E AS MEMÓRIAS

A vida de Eduardo também foi marcada pela ligação com suas origens e pela importância dos laços familiares. Casado com Ana Maria Santa Rita, deixa esposa, três filhos, cinco netos e os irmãos João Carlos Paes Mendonça, José Américo Mendonça, Reginaldo Paes Mendonça, Maria Mendonça, Ester Mendonça Ferreira, Josefa Cecinha Mendonça e Joseilde Mendonça Prado.

O irmão João Carlos fez questão de destacar a dimensão humana da perda. “Perdemos um irmão querido. Uma pessoa exemplar. Um homem de muitos amigos e de uma leveza que agregava as pessoas em torno dele”, afirmou, ao recordar também sua atuação no Bompreço e a confiança que conquistou entre os colegas.

Durante a pandemia, Eduardo passou a revisitar episódios de sua vida e transformou lembranças em livros. Escreveu A pedra do meu caminho, em primeira pessoa, e O dito e o não dito, em terceira pessoa, registrando experiências, dificuldades, conquistas e aprendizados.

O que começou como uma forma de ocupar o tempo acabou se tornando uma maneira de preservar sua história e transmiti-la às próximas gerações.

Eduardo Paes Mendonça deixa uma trajetória que não cabe apenas na lista de empresas das quais participou ou nos empreendimentos em que investiu. Sua história reúne trabalho, coragem para recomeçar, respeito aos próprios princípios e a capacidade de transformar uma dor pessoal em oportunidade de acolher outras famílias.

No mundo dos negócios, construiu seu caminho. Na vida, deixou uma lição que vai além de qualquer patrimônio: o verdadeiro legado de uma pessoa também se mede pelas vidas que ela ajuda a transformar.

Edney Souto | Blog do Edney

O NORDESTE NÃO É TERRA DE VAGABUNDO: É TERRA DE GENTE QUE APRENDEU A VENCER MESMO QUANDO O BRASIL LHE VIRA AS COSTAS



Por Edney Souto | Blog do Edney

Voltei de Goiânia, em Goiás, carregando na bagagem novos conhecimentos, boas lembranças de pessoas que tive a oportunidade de conhecer e uma sensação amarga que ainda custa a desaparecer. Fui para estudar, aprender, conhecer outras culturas e ampliar horizontes. Encontrei gente acolhedora, educada, generosa e disposta a conversar. Mas também encontrei, em meio ao calor de uma eleição que já passou, uma face dolorosa do Brasil: o preconceito contra quem nasceu no Nordeste.

Ouvi frases que parecem ter saído de um Brasil que insiste em não se enxergar no espelho. “Nordestino é tudo vagabundo.” “O Nordeste só suga as riquezas do país.” “Lá só tem preguiçoso.”

E eu estava ali, com meu sotaque carregado, sem esconder de onde vim, ouvindo atentamente aquelas declarações. Não fui a Goiânia para brigar. Fui para aprender. Mas, como jornalista, aprendi que os números também falam. E, diante de tamanha ignorância, eles se tornam instrumentos poderosos para desmontar mentiras repetidas como se fossem verdades absolutas.

O que mais incomoda não é uma divergência política. Democracia é isso mesmo: pessoas pensando diferente, votando em candidatos distintos e defendendo projetos que nem sempre combinam. O problema começa quando alguém acredita que a escolha eleitoral de milhões de brasileiros lhe dá o direito de humilhar uma região inteira. Quando o voto vira pretexto para chamar um povo de preguiçoso, a discussão deixa de ser política e passa a revelar um preconceito muito mais antigo.

Passadas as eleições, com Lula reeleito presidente da República, essa reflexão ganha um significado ainda mais especial para mim. Lula é meu conterrâneo, pernambucano de nascimento, natural de Garanhuns, a mesma terra do Agreste que carrego comigo por onde ando. E não há como negar que, depois de ouvir tantas ofensas contra os nordestinos, ver um filho da nossa região novamente escolhido para comandar o país tem um peso simbólico particular.

Não escrevo isso para dizer que todo nordestino precisa votar em Lula, muito menos para afirmar que quem votou contra ele vale menos. Democracia é liberdade de escolha. O que não pode existir é a ideia absurda de que o nordestino merece menos respeito porque vota de determinada maneira. O resultado das urnas não transforma ninguém em cidadão de primeira ou segunda categoria.

O que me incomoda é perceber que, para algumas pessoas, o voto nordestino se transforma em autorização para atacar a dignidade de milhões de brasileiros. Como se o resultado eleitoral apagasse nossa história, diminuísse nossa capacidade de trabalho ou nos tornasse menos merecedores de respeito.

Lula saiu de Garanhuns, no Agreste pernambucano, e chegou à Presidência da República. Sua trajetória política tem controvérsias, desperta paixões e provoca críticas legítimas, como acontece com qualquer liderança nacional. Mas sua origem não pode ser usada como instrumento de humilhação contra os nordestinos. Independentemente da posição política de cada um, sua história mostra que o lugar onde alguém nasce não determina até onde essa pessoa pode chegar.

E é justamente por isso que precisamos falar de números.

O Nordeste tem problemas? Evidentemente. Tem desigualdades históricas, dificuldades de infraestrutura, desafios no mercado de trabalho e municípios que ainda lutam contra a pobreza. Negar isso seria irresponsabilidade jornalística. Mas transformar essas dificuldades em uma sentença contra a dignidade de quase 60 milhões de pessoas é outra coisa. É desconhecer a história e, pior, usar a ignorância como argumento.

Segundo dados demográficos do IBGE, o Nordeste reúne aproximadamente 54,6 milhões de habitantes no Censo de 2022, pouco mais de um quarto da população brasileira. Estamos falando de uma região formada por nove estados, com economias, culturas, sotaques e realidades muito diferentes. Não é uma pequena parcela do país, muito menos um território que possa ser reduzido a meia dúzia de estereótipos.

A economia nordestina está presente na agricultura, na indústria, no comércio, nos serviços, no turismo, na energia e em inúmeras atividades que sustentam milhões de famílias. Pernambuco tem um polo médico, um complexo portuário e industrial e uma economia de serviços expressiva. A Bahia tem uma estrutura industrial e agropecuária de grande relevância. Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Maranhão e Piauí também possuem atividades produtivas e potencialidades próprias.

Não existe uma única fotografia do Nordeste. Existe uma região inteira, diversa, que trabalha e busca oportunidades, apesar das desigualdades que ainda precisam ser enfrentadas.

E o mercado de trabalho também conta uma história que não cabe na conversa preconceituosa. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, registrou avanços importantes no emprego brasileiro em 2025, com a menor taxa anual de desocupação da série histórica nacional. Os indicadores variam entre os estados e as regiões, e o Nordeste continua enfrentando obstáculos próprios. É justamente por isso que os dados devem ser analisados com seriedade, sem esconder dificuldades nem apagar conquistas.

Uma coisa, porém, precisa ficar clara: estar desempregado não é sinônimo de preguiça. Viver na pobreza não significa falta de capacidade. Enfrentar desigualdades históricas não transforma ninguém em cidadão inferior.

É justamente isso que diferencia uma análise séria de um preconceito: os números permitem enxergar a realidade com suas conquistas e dificuldades. O preconceituoso escolhe uma caricatura e tenta obrigar o mundo inteiro a caber dentro dela.

Há ainda uma questão que merece atenção: o Nordeste não é apenas uma região que precisa de oportunidades. É também uma região que produz oportunidades, movimenta o consumo e participa ativamente da economia nacional. De acordo com as Contas Regionais do IBGE, o Nordeste respondeu por aproximadamente 13,8% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2023. O Centro-Oeste, por sua vez, respondeu por cerca de 10,6% naquele mesmo ano.

São economias diferentes, com características próprias, e esses percentuais não devem ser confundidos com uma disputa entre povos. O Centro-Oeste tem sua força no agronegócio, nos serviços, na administração pública e em outras atividades econômicas. Goiânia tem sua importância, sua história e suas contribuições para o Brasil. Reconhecer isso não exige diminuir Pernambuco, o Ceará, a Bahia ou qualquer outro estado nordestino.

O desenvolvimento de uma região não precisa acontecer às custas da humilhação de outra.

O que vi e ouvi em Goiânia não me autoriza a condenar os goianos. Conheci pessoas boas e não seria justo colocar uma população inteira no mesmo saco por causa de declarações preconceituosas de alguns. Seria repetir, do outro lado, o mesmo erro que me feriu. O problema não é Goiás. O problema é o preconceito, esteja ele onde estiver.

E não se trata apenas de uma impressão individual. Estudos sobre o discurso de ódio nas redes sociais identificaram o crescimento de manifestações hostis contra nordestinos durante períodos eleitorais, especialmente nas disputas presidenciais. A associação entre origem regional e escolha política transforma milhões de pessoas em alvo de ataques que não deveriam ter espaço em uma sociedade democrática.

O preconceito regional não nasce nas urnas, mas muitas vezes encontra nas eleições o combustível para se manifestar. Basta uma diferença de votos entre regiões para que apareçam acusações coletivas, ofensas e tentativas de desqualificar o eleitor nordestino.

É triste perceber que, em pleno século XXI, ainda exista gente que acredita que o CEP de nascimento define o caráter de alguém. Como se honestidade, inteligência, disposição para o trabalho e capacidade de vencer fossem propriedades exclusivas de determinada região do Brasil.

O nordestino que sai de sua terra para estudar, trabalhar ou empreender não carrega consigo apenas uma mala. Carrega a história de uma região marcada por dificuldades, resistência, criatividade e capacidade de recomeçar. Carrega a força de pais e mães que fizeram sacrifícios para garantir aos filhos oportunidades que eles próprios não tiveram. Carrega a memória de trabalhadores rurais, professores, comerciantes, profissionais liberais, artistas, cientistas e tantos outros brasileiros que ajudaram a construir este país.

Eu conheço essa realidade. Sou nordestino, pernambucano, tenho orgulho do meu sotaque e não preciso disfarçar minha origem para ser respeitado. Não preciso falar como alguém de outro lugar, nem diminuir minhas raízes para caber na visão limitada de quem acredita que o Brasil termina na fronteira de sua própria experiência.

Passadas as eleições, o resultado das urnas deveria servir também como um convite à reflexão. Lula foi reeleito, mas o país continua sendo formado por brasileiros que fizeram escolhas diferentes. A vitória de um candidato não apaga a existência de quem votou no adversário, assim como a derrota de outro não autoriza ataques a quem o apoiou.

A eleição terminou. A obrigação de respeitar o próximo continua.

Confesso: houve momentos em que tive vontade de voltar àqueles lugares, abrir os dados, apresentar as estatísticas e esfregar os números na cara de quem falou tanta bobagem. A indignação é humana. Quando alguém ofende sua terra, sua história e seu povo, a vontade de responder aparece quase imediatamente.

E, sim, a vitória de Lula lavou minha alma em um sentido muito pessoal. Não porque um resultado eleitoral resolva todos os problemas do Nordeste, nem porque todos os nordestinos pensem da mesma maneira. Lavou minha alma porque, depois de ouvir aquelas frases, senti ainda mais orgulho de pertencer a uma região que tantas vezes é julgada sem ser conhecida.

Meu conterrâneo nasceu em Garanhuns e chegou novamente à Presidência pelo voto popular. Isso não faz dele um representante de todos os nordestinos, nem significa que a região tenha uma única opinião política. Mas torna impossível apagar a presença do Nordeste no centro da história brasileira.

Não quero transformar minha indignação em outra guerra entre regiões. Quero fazer o que a profissão me ensinou: informar, apresentar os fatos e exigir respeito. O Brasil não precisa de nordestinos contra goianos, pernambucanos contra paulistas ou qualquer outra disputa alimentada por estereótipos. Precisa de cidadãos capazes de reconhecer que as diferenças regionais não tornam ninguém superior.

O Nordeste não precisa ser apresentado como uma região perfeita. Nenhuma região brasileira é. Precisa ser reconhecido como ele realmente é: diverso, produtivo, cheio de talentos, com dificuldades reais e uma população que merece as mesmas oportunidades e o mesmo respeito concedidos a qualquer cidadão brasileiro.

Voltei de Goiânia com novos conhecimentos, boas lembranças e uma ferida provocada por palavras que não deveriam encontrar espaço em uma sociedade democrática. Mas voltei também com uma certeza ainda maior sobre quem sou e de onde vim.

Meu sotaque não é defeito. Minha origem não é motivo de vergonha. Minha terra não é sinônimo de atraso.

Sou nordestino. Sou pernambucano. Sou de Garanhuns, terra que também viu nascer o presidente Lula. E não aceito que confundam desigualdade com incapacidade, pobreza com preguiça ou divergência política com inferioridade humana.

Se os números ainda não são suficientes para convencer quem escolheu viver dentro do preconceito, talvez seja porque o problema nunca esteve apenas na falta de informação, mas na falta de disposição para enxergar o outro como igual.

O Nordeste segue trabalhando, produzindo, estudando, empreendendo e criando seus filhos. Segue enfrentando suas dificuldades sem pedir autorização a ninguém para ter orgulho de sua história.

E eu sigo fazendo o que aprendi na profissão: mostrando os fatos, contando as histórias e dando voz a quem muitas vezes é julgado antes mesmo de ser ouvido.

Porque o Nordeste não precisa baixar a cabeça para caber no Brasil. O Nordeste é Brasil.

Edney Souto — Blog do Edney