Por trás do artista que ajudou a eternizar o Pantanal na televisão existe um produtor rural que há mais de duas décadas defende uma ideia que continua atual: preservar o bioma sem expulsar quem vive e produz na terra
Almir Sater é daqueles personagens que parecem ter sido moldados pelo próprio cenário que ajudaram a representar. A viola, o chapéu, o cavalo, a música e o Pantanal acabaram se misturando à imagem do artista. Mas existe uma dimensão de sua trajetória que vai muito além da televisão e dos palcos: a de produtor rural.
Aos 69 anos, Sater mantém a Fazenda Campo Novo, na região de Aquidauana, em Mato Grosso do Sul, com aproximadamente 25 mil hectares. E o tamanho da propriedade é apenas uma parte da história. O que chama atenção é o conceito que acompanha sua relação com a terra: a tentativa de conciliar criação de gado, atividade econômica e preservação ambiental.
O QUE ESTÁ NA LUPA
O caso de Almir Sater merece uma leitura além da curiosidade sobre “quanto vale uma fazenda de 25 mil hectares”.
O ponto central é outro: ele representa uma corrente dentro do Pantanal que defende que conservação e produção não precisam ser necessariamente inimigas.
Essa discussão não começou agora. Em 2003, Sater assumiu a presidência do Instituto Parque do Pantanal e passou a defender um modelo de gestão participativa envolvendo governo e produtores rurais. A proposta tinha como base justamente o tripé meio ambiente, economia e questões sociais.
Naquele momento, a ideia era ousada: preservar sem transformar necessariamente o produtor em inimigo da conservação e sem fazer da desapropriação a única ferramenta de proteção ambiental.
É uma discussão que, em 2026, ganhou ainda mais força.
25 MIL HECTARES NÃO SÃO APENAS UM NÚMERO
Quando se fala em uma propriedade de aproximadamente 25 mil hectares, o imaginário urbano imediatamente pensa em uma gigantesca fazenda. No Pantanal, porém, a realidade é mais complexa.
O território funciona de acordo com ciclos naturais de cheia e seca, e a pecuária tradicional se desenvolveu historicamente em grandes extensões. O desafio está justamente em encontrar um equilíbrio entre o aproveitamento econômico da terra e a preservação da dinâmica natural do bioma.
A Campo Novo está inserida nessa lógica.
Sater não abandonou a pecuária em nome da preservação. Pelo contrário: continua criando gado. Em declarações ao longo de sua trajetória, o artista deixou claro que se considera produtor rural e que a criação de animais faz parte de sua vida.
O VIOLEIRO VIROU PEÃO
Talvez essa seja a parte mais interessante da história.
Almir Sater não trata a fazenda apenas como patrimônio. A atividade rural faz parte de sua rotina e de sua identidade.
O próprio cantor já explicou que, durante períodos do calendário rural, permanece ligado à propriedade e depois sai para cumprir sua agenda de shows. Ele cria gado, trabalha com vacas de cria e comercializa bezerros.
Ou seja: enquanto boa parte do Brasil conhece Almir Sater pelo palco, existe um outro Almir que conhece a lida, o gado e a rotina de uma propriedade pantaneira.
E isso ajuda a explicar por que sua defesa da conservação tem uma característica diferente. Ele fala também a partir do lugar de quem produz.
UMA IDEIA QUE ANTECEDEU O DEBATE ATUAL
Aqui está talvez o ponto mais relevante desta análise.
Há mais de 20 anos, quando assumiu o Instituto Parque do Pantanal, Sater já defendia uma espécie de pacto entre produção e conservação. O projeto buscava criar uma gestão participativa entre poder público e produtores, permitindo que as famílias permanecessem nas propriedades e que a atividade econômica continuasse dentro de parâmetros sustentáveis.
Hoje, conceitos como pecuária de baixo carbono, pagamento por serviços ambientais, rastreabilidade e valorização econômica da produção sustentável ganharam espaço no debate nacional.
A ideia, portanto, não envelheceu.
Pelo contrário.
O que parecia uma experiência regional no início dos anos 2000 hoje está no centro da discussão sobre o futuro do agronegócio brasileiro.
NÃO É UMA RESERVA DE 25 MIL HECTARES
É importante separar realidade de manchete.
A Fazenda Campo Novo está associada a um projeto de desenvolvimento sustentável e à preservação do Pantanal, mas isso não significa que os 25 mil hectares tenham sido transformados integralmente em uma reserva ambiental de proteção permanente.
O próprio histórico do Parque Regional do Pantanal mostra que o modelo permitia a continuidade de atividades produtivas. A proposta era justamente criar uma convivência entre conservação e produção.
Essa diferença é importante porque evita transformar uma experiência de sustentabilidade em algo que ela não é.
DO PALCO PARA A DEFESA DO BIOMA
A relação de Sater com o Pantanal também ajudou a construir sua carreira.
Sua participação na primeira versão de Pantanal, em 1990, colocou ainda mais luz sobre uma região que até então era desconhecida para grande parte do público brasileiro. Décadas depois, o artista continuou ligado à novela e ao bioma.
Mas sua relação com o Pantanal não ficou restrita à ficção.
Em 2025, Sater recebeu o título de Embaixador do Pantanal, reconhecimento que reforçou uma trajetória que reúne música, cultura, produção rural e defesa da região.
A LEITURA DO BLOG DO EDNEY
Na lupa, a história de Almir Sater é maior do que a curiosidade sobre um famoso que possui uma fazenda gigantesca.
Ela expõe um debate que Pernambuco também conhece bem: como produzir, gerar riqueza e manter o homem no campo sem destruir os recursos naturais?
No Pantanal, essa equação é ainda mais delicada.
Sater acabou se tornando uma espécie de personagem-síntese dessa discussão. Ele não fala apenas como artista que se apaixonou pela paisagem. Fala como produtor que decidiu permanecer nela.
E talvez esteja aí a grande força de sua história.
Almir Sater não apenas cantou o Pantanal. Ele escolheu viver parte de sua vida dentro dele, produzir dentro dele e defender uma ideia de preservação que inclui quem trabalha na terra.
Mais de duas décadas depois de assumir o Instituto Parque do Pantanal, o debate continua aberto. E, no fundo, a pergunta permanece a mesma: é possível conservar o Pantanal sem transformar o produtor rural em estrangeiro dentro da própria terra?
A trajetória de Sater aposta que sim.
E é justamente por isso que sua fazenda de 25 mil hectares é muito mais do que um patrimônio rural: é parte de uma experiência que coloca produção, preservação e permanência do homem no campo na mesma mesa.