Durante entrevista recente, João Campos foi questionado sobre as duras críticas dirigidas ao PT na eleição municipal de 2020, quando enfrentou Marília Arraes no segundo turno. O atual candidato ao Governo de Pernambuco reconheceu que já teve divergências com os petistas, mas fez questão de afirmar que nunca falou mal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que sempre manteve admiração pelo petista.
O problema é que a internet não costuma esquecer.
Vídeos, trechos de entrevistas e declarações daquele período começaram a circular novamente com força nas redes sociais. Os adversários de João estão apostando justamente no contraste entre o discurso adotado naquele momento e a configuração política atual, na qual o PSB voltou a caminhar lado a lado com o PT e Lula se tornou uma peça central da estratégia eleitoral.
Em 2020, João Campos e Marília Arraes protagonizaram uma das disputas mais duras da história recente do Recife. O segundo turno foi marcado por ataques, críticas e acusações de lado a lado. João representava o PSB, enquanto Marília disputava pelo PT, antes de posteriormente migrar para o Solidariedade.
Aquele confronto deixou marcas.
E elas não desapareceram. Na eleição de 2022, o embate ganhou novo capítulo. Marília Arraes disputou o Governo de Pernambuco pelo Solidariedade, enquanto o PSB lançou Danilo Cabral, que recebeu o apoio do PT. Novamente, declarações e críticas feitas durante a batalha eleitoral de 2020 foram utilizadas para tentar expor as contradições dos grupos envolvidos.
Agora, em 2026, o roteiro volta a se repetir.
A diferença é que João Campos não está mais disputando apenas a Prefeitura do Recife. Ele tenta conquistar o Governo de Pernambuco e precisa ampliar seu eleitorado para além da capital. Para isso, a aproximação com o campo político de Lula e com setores que antes estavam do outro lado da trincheira se tornou parte importante da composição eleitoral.
É justamente nesse ponto que seus adversários encontraram munição.
A estratégia é simples: recuperar frases antigas, colocar lado a lado com declarações atuais e deixar para o eleitor interpretar a mudança de posicionamento. Na política, poucas coisas rendem tanto quanto uma contradição aparente.
João tenta separar as críticas feitas ao PT das críticas a Lula. É uma defesa politicamente compreensível. Mas seus adversários trabalham para provar que, naquele momento, a fronteira entre uma coisa e outra não era tão clara quanto agora se tenta apresentar.
O episódio mostra que, em uma eleição cada vez mais marcada pelas redes sociais, o arquivo virou adversário.
Tudo o que foi dito diante das câmeras pode reaparecer anos depois, editado, compartilhado e transformado em peça eleitoral. E João Campos, que construiu uma imagem de político jovem, moderno e estrategicamente preparado, começa a perceber que sua própria trajetória também será colocada sob escrutínio.
O passado, portanto, ainda ronda João Campos.
E quanto mais a campanha avança, maior será a pressão para que ele explique não apenas o que pensa hoje, mas também o que dizia quando seus atuais aliados estavam do outro lado do palanque.