Em uma nota pública marcada por tom sereno, porém firme, Tadeu Alencar reconhece que a indicação ao cargo representava uma distinção significativa — “uma honra para qualquer servidor público de carreira” —, mas admite que o movimento acabou provocando tensões internas indesejáveis dentro de sua legenda. Ao optar por não assumir o posto, o parlamentar busca evitar que disputas políticas desviem o foco do governo federal, que, segundo ele, deve concentrar esforços na melhoria das condições de vida da população, com ênfase na inclusão social e no combate às desigualdades.
A postura adotada por Tadeu evidencia uma tentativa de preservar a unidade partidária em um momento sensível. O PSB, historicamente marcado por lideranças influentes e correntes internas distintas, volta a enfrentar um cenário de disputas que, embora comuns no ambiente político, ganham maior relevância quando se refletem diretamente na composição do primeiro escalão do governo.
Ao destacar que sua permanência no ministério poderia alimentar ainda mais essas divergências — “por motivos alheios à minha vontade e à minha pessoa” —, o deputado reforça que sua decisão não está ligada a ambição pessoal, mas a um entendimento político mais amplo. Ele faz questão de frisar que não participou de articulações para viabilizar sua nomeação, defendendo uma visão de política centrada em projetos coletivos, e não em personalismos.
O gesto também dialoga diretamente com a estratégia do governo Lula de manter coesa sua base aliada. Em um contexto em que ministérios frequentemente representam espaços de negociação entre partidos, a recusa de um nome indicado pode ser interpretada como sinal de maturidade política ou, por outro lado, como alerta para tensões ainda não plenamente resolvidas dentro da coalizão.
Tadeu Alencar também faz referência à sua trajetória de mais de quatro décadas no serviço público, ressaltando que a eventual nomeação seria um desdobramento natural de sua experiência como secretário executivo da pasta. Ainda assim, opta por priorizar o que chama de “unidade e pacificação”, indicando que a estabilidade política deve prevalecer sobre projetos individuais.
A mensagem carrega ainda um tom de despedida digna. Ao afirmar que deixa a condição de ministro “de cabeça erguida”, mesmo sem ter efetivamente exercido o cargo por longo período, o parlamentar reforça valores ligados à ética pública e à transitoriedade dos cargos políticos. Para ele, mais importante do que ocupar posições de poder é a forma como se atua nelas — se em favor do coletivo ou de interesses desconectados da realidade da população.
O texto também resgata a tradição histórica do PSB, citando figuras emblemáticas como João Mangabeira, Miguel Arraes, Eduardo Campos, além de nomes atuais como Geraldo Alckmin e João Campos, numa tentativa de reafirmar o compromisso do partido com a democracia e a justiça social. Ao mencionar essas lideranças, Tadeu sinaliza que o momento exige responsabilidade histórica e consciência política diante dos desafios contemporâneos.
Nos bastidores, a decisão deve impactar diretamente a reorganização da equipe ministerial e a relação do PSB com o governo federal. Ainda que o gesto tenha sido apresentado como voluntário, ele evidencia que a disputa por espaços de poder segue sendo um dos principais desafios da governabilidade.
Ao final, Tadeu Alencar faz um agradecimento direto ao presidente Lula, destacando a confiança recebida desde 2023 e reiterando seu compromisso com o projeto de reconstrução do país. A mensagem, embora marcada por renúncia, também reafirma alinhamento político e disposição para continuar contribuindo, ainda que fora do ministério.
NOTA DE TADEU ALENCAR
“A minha nomeação para Ministro do Empreendedorismo, sobre ser uma honra para qualquer servidor público de carreira, terminou por acarretar tensões no meu partido, o PSB, que são, sob todos os aspectos, indesejáveis.
É indispensável que o governo, desde logo, possa gastar a sua energia para continuar melhorando a vida da população, com inclusão e combate às desigualdades.
Desta forma, conquanto se cuide de prerrogativa do Chefe do Poder Executivo, mas também espaço de indicação partidária, não me sinto à vontade para seguir à frente da pasta, sabendo que tal continuidade, por motivos alheios à minha vontade e à minha pessoa, alimenta tais tensões.
Não reivindiquei, não articulei, não angariei apoios, não busquei patrocínio, visando a tal nomeação, porque a política, antes de ser feita em torno de personalismos, deve se fazer em torno de projetos.
Com responsabilidade com o governo do qual fazemos parte, busca-se unidade e pacificação.
Ainda que como Secretário Executivo fosse natural tão honrosa investidura, critério sabiamente afirmado pelo Presidente da República, lastreada, também numa trajetória de mais de 40 anos, o certo é que precisamos, rapidamente, superar divergências e começar a trabalhar em favor do Brasil.
Na administração pública é natural a nomeação e a exoneração dos cargos, por mais relevantes, dada a sua natureza mesma de transitoriedade.
O importante é o que fazemos quando os ocupamos: se servimos ao coletivo ou a interesses dissociados da dura realidade do nosso povo.
Saio da honrosa condição de Ministro de cabeça erguida, pois nasci num território onde os homens e mulheres sempre estiveram de pé.
Se o tempo foi curto, não há problema, a vida é breve.
Agradeço ao Presidente Lula tamanha distinção. Desde 2023 sirvo ao seu projeto de reconstrução e transformação do Brasil. Que o nosso PSB, de Mangabeira, de Arraes, de Eduardo Campos, de Geraldo Alckmin, de João Campos – que nos lidera em quadra tão desafiadora - de tantos que lutaram pelas franquias democráticas e contra as injustiças, tenha cada vez mais consciência da tarefa que lhe pesa sobre os ombros. Os cargos, esses são passageiros, mas o ideal, permanece e é ele que nos guia, sempre!”