A operação, batizada de Make Up, cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados. Entre os alvos estão Mário Frias e Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e ligada à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa. A ação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.
O ponto central da investigação são R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas por Frias ao ICB. Oficialmente, os recursos foram direcionados para projetos sociais, educacionais e esportivos. A PF, porém, encontrou indícios de que parte desse dinheiro pode ter percorrido uma cadeia de empresas e chegado à produtora do filme.
Um dos caminhos investigados envolve R$ 700 mil pagos pelo ICB a duas empresas. Posteriormente, uma empresa ligada ao mesmo grupo transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse. A PF ressalva que ainda não é possível afirmar que os R$ 750 mil sejam exatamente os mesmos recursos públicos recebidos pelo instituto, mas considera a coincidência de valores e a proximidade das operações relevantes para a investigação.
E há outro ponto que chamou a atenção dos investigadores: Mário Frias transferiu R$ 645,4 mil diretamente para a produtora do filme em um período inferior a dois meses. A PF questiona a origem dos recursos e compara o valor com os rendimentos mensais declarados pelo parlamentar, de pouco mais de R$ 44 mil.
As movimentações também coincidem com o período de gravação de Dark Horse. Segundo a investigação, o filme foi gravado em São Paulo entre outubro e dezembro de 2025. No mesmo intervalo, a Go Up movimentou aproximadamente R$ 19 milhões, incluindo transferências consideradas atípicas pelos investigadores.
A investigação ainda aponta problemas na execução de projetos financiados pelas emendas. Um deles, de R$ 1 milhão, previa ações de empreendedorismo e letramento digital para estudantes em Pirassununga. Segundo apuração jornalística, o projeto não teria saído do papel, enquanto a prestação de contas apresentou despesas sem comprovação suficiente da realização das atividades.
A PF apura, em tese, crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa, emprego irregular de verbas públicas e fraudes em contratos. Até o momento, trata-se de uma investigação, e não de uma condenação.
Mário Frias nega qualquer irregularidade. O deputado afirma que as emendas tiveram finalidade social e esportiva e classificou a operação como uma espécie de “cortina de fumaça” em pleno ano eleitoral. Ele também nega que recursos públicos tenham sido utilizados para financiar Dark Horse.
O caso ganhou peso político porque Frias não é apenas parlamentar ligado ao bolsonarismo: ele também aparece diretamente relacionado à produção do filme, como produtor-executivo e roteirista. É justamente essa proximidade entre emendas, entidades beneficiadas, empresas contratadas e a produção de Dark Horse que está no centro do radar da Polícia Federal.
Agora, a investigação tenta responder à pergunta que vale milhões: o dinheiro das emendas ficou realmente nos projetos para os quais foi destinado ou percorreu um caminho paralelo até chegar à produção do filme sobre Bolsonaro? A resposta deverá sair do rastreamento financeiro e da análise dos documentos apreendidos na operação.