A frase escolhida para resumir o discurso foi direta: “Pernambuco está pronto para o futuro, mas o futuro já começou agora.”
Mais do que uma declaração de campanha, a fala resume a estratégia política que Raquel vem apresentando desde o início da disputa pela reeleição. A governadora tenta transformar os resultados acumulados durante sua gestão em argumento para pedir mais quatro anos no Palácio do Campo das Princesas.
Na sabatina, ela voltou a explorar uma narrativa que acompanha sua trajetória política desde antes de assumir o governo: a de que Pernambuco precisava melhorar o ambiente para quem produz, investe e empreende.
DO “PIOR LUGAR” AO DISCURSO DE REAÇÃO
Raquel voltou a citar o relatório Doing Business Subnacional Brasil 2021, do Banco Mundial, que colocou Pernambuco na última posição entre os estados brasileiros avaliados em ambiente de negócios. A referência não é nova. Ainda na campanha de 2022, a então candidata utilizava esse dado para defender uma mudança na relação entre o poder público e o setor produtivo.
Agora, quatro anos depois, a governadora tenta apresentar o mesmo indicador como ponto de partida para medir a mudança promovida durante sua administração.
O discurso é simples: o Estado que ela recebeu seria o retrato do passado; o Pernambuco que ela apresenta agora seria a preparação para o futuro.
Raquel afirmou que o governo modificou a legislação tributária, aproximou-se dos empreendedores e digitalizou procedimentos de licenciamento ambiental.
E aqui existe um dado concreto que ajuda a sustentar parte do argumento. Relatório de atividades da CPRH registra que o prazo médio de análise e emissão de licenças ambientais caiu de 150 dias para 34 dias.
A própria estrutura ambiental do Estado também passou por processos de digitalização e modernização, incluindo a Plataforma Ecológico-Econômica de Pernambuco, que reúne informações ambientais para subsidiar decisões de empreendedores e do poder público.
EMPREGO É OUTRO PILAR DO DISCURSO
A estratégia de Raquel também passa pelos números do mercado de trabalho.
Segundo dados do Novo Caged divulgados no início deste ano, Pernambuco encerrou 2025 com saldo de 72.565 empregos formais, ficando na sexta posição nacional e na segunda entre os estados nordestinos naquele ano. No acumulado de janeiro de 2023 a dezembro de 2025, o saldo chegou a 183.485 empregos com carteira assinada.
Esse é um dos indicadores que a governadora utiliza para defender a tese de que a economia pernambucana teria entrado em uma trajetória diferente da encontrada no início de sua gestão.
Mas há um detalhe importante na leitura política: emprego, ambiente de negócios e investimentos são temas que precisam ser observados em conjunto com outros indicadores econômicos e sociais. Portanto, os números apresentados pela campanha representam uma parte da fotografia, e não necessariamente toda a realidade econômica do Estado.
O LEITE COMO SÍMBOLO DO INTERIOR
Na sabatina, Raquel também recorreu a uma bandeira especialmente importante para o Agreste Meridional: a cadeia produtiva do leite.
A governadora afirmou que Pernambuco voltou a ser a maior bacia leiteira do Nordeste. A declaração vem sendo repetida pela gestão estadual ao longo de 2026. Durante a ExpoGaranhuns, em março, Raquel atribuiu a recuperação do setor a medidas como redução da tributação, retomada do Programa Leite para Todos e apoio aos pequenos produtores.
A atual etapa do programa ampliou a distribuição de leite de 12 mil para 24 mil litros por dia e passou a alcançar 51 municípios, com previsão de beneficiar aproximadamente 100 mil pessoas diariamente. O governo informou investimento de R$ 11 milhões nessa ampliação.
Outro ponto destacado pela gestão é a compra direta do leite dos pequenos produtores. Segundo informações divulgadas em março, o Estado passou a adquirir o produto por R$ 2,60 o litro. Desde a retomada do programa, em julho de 2024, mais de 4,8 milhões de litros haviam sido adquiridos de 565 produtores.
Para o Agreste, esse discurso tem peso político especial. A produção leiteira não é apenas uma atividade econômica: envolve pequenos produtores, queijeiros, transportadores, comerciantes, trabalhadores rurais e uma extensa cadeia de derivados.
O RECADO POLÍTICO POR TRÁS DA SABAТINA
Na Lupa, a leitura política da participação de Raquel é bastante clara: a governadora não foi à sabatina apenas para responder perguntas; foi para reforçar a narrativa central de sua campanha.
Ela tenta apresentar sua gestão como uma administração que organizou as bases para um novo ciclo de crescimento.
A mesma linha já havia aparecido em entrevista concedida pela governadora à imprensa em junho. Na ocasião, Raquel afirmou que recebeu um Estado com dificuldades financeiras, defendeu a retomada de obras e destacou medidas voltadas ao ambiente de negócios, emprego e investimentos.
O movimento ocorre em uma eleição que entrou oficialmente em sua fase mais intensa e na qual o cenário permanece disputado. Pesquisa RealTime Big Data divulgada em 17 de agosto mostrou João Campos e Raquel Lyra empatados em 43% no primeiro turno e também em 44% a 44% em uma simulação de segundo turno.
Ou seja: cada discurso passou a ter uma função eleitoral muito mais precisa.
O FUTURO COMO ARGUMENTO DE REELEIÇÃO
Ao dizer que “o futuro já começou”, Raquel tenta deslocar o debate eleitoral para uma pergunta estratégica: se Pernambuco estaria começando a colher os resultados das mudanças realizadas desde 2023, seria necessário interromper esse processo ou permitir que ele continue?
É justamente aí que está o núcleo da mensagem.
A governadora procura transformar obras, empregos, desburocratização, incentivos fiscais, infraestrutura e fortalecimento de cadeias produtivas em uma espécie de pacote único chamado “novo Pernambuco”.
Na prática, a eleição começa a ser apresentada pela candidata como uma escolha entre a continuidade de um projeto que ela afirma ter iniciado e uma eventual mudança de comando.
A oposição, naturalmente, terá o papel de contestar essa narrativa, questionando a dimensão dos resultados, os indicadores que ainda permanecem abaixo das necessidades do Estado e aquilo que não avançou na velocidade prometida.
E é nesse terreno que a campanha deve ficar cada vez mais pesada nas próximas semanas.
Raquel está tentando vender a ideia de que Pernambuco não precisa mais esperar pelo futuro. Segundo ela, o futuro já chegou — e tem a marca da sua gestão.