A convocação feita por Carlo Ancelotti nesta segunda-feira recoloca Neymar no maior palco do futebol mundial e abre espaço para um novo roteiro. Aos olhos do técnico italiano, ainda existe espaço para o brilho decisivo daquele jogador que encantou o planeta vestindo a camisa da Seleção e do Barcelona. Mesmo convivendo com seguidas lesões e um longo período de instabilidade física desde a eliminação para a Croácia, em 2022, Neymar recebe a confiança para disputar sua quarta Copa do Mundo.
A decisão de Ancelotti carrega também um forte componente emocional. Internamente, líderes da Seleção defenderam a presença do camisa 10 no grupo. O entendimento é de que, mesmo sem viver o auge físico ou técnico de anos anteriores, Neymar ainda possui algo raro: capacidade de decidir partidas em um único lance. Pela primeira vez, porém, ele chega a um Mundial sem o peso absoluto de ser o centro de tudo. O protagonismo total ficou para trás. Agora, o craque entra em uma nova fase: a do jogador experiente que tenta transformar sua última dança em legado definitivo.
A caminhada de Neymar nas Copas sempre foi cercada de expectativas gigantescas. Em 2010, ainda muito jovem, ficou fora da lista de Dunga, mas mesmo ausente acabou dominando o debate nacional. As perguntas após a convocação não eram sobre quem foi chamado, mas sobre por que Neymar e Paulo Henrique Ganso ficaram fora daquele elenco.
Quatro anos depois, em 2014, Neymar se tornou o grande símbolo da campanha brasileira. Foi dele a responsabilidade de carregar a Seleção até a semifinal disputada em casa. O sonho acabou dramaticamente após a joelhada do colombiano Zúñiga, lesão que o tirou da reta final do torneio e abriu caminho para o traumático 7 a 1 diante da Alemanha. O craque viu do lado de fora o maior colapso da história do futebol brasileiro em Copas.
Na Rússia, em 2018, a eliminação veio diante da Bélgica. Já em 2022, no Catar, Neymar viveu outro golpe duro. Marcou um golaço contra a Croácia nas quartas de final e parecia conduzir o Brasil à semifinal. Mas a reação croata levou a decisão para os pênaltis, e o camisa 10 sequer teve a chance de cobrar. A eliminação deixou marcas profundas e alimentou a sensação de que sua relação com Copas do Mundo estava destinada à frustração.
Ainda assim, o sonho nunca morreu. Mesmo após indicar que o Catar poderia ser sua despedida, Neymar jamais escondeu o desejo de disputar o Mundial de 2026, que será realizado nos Estados Unidos, Canadá e México. O retorno ao Santos Futebol Clube fazia parte exatamente desse projeto de reconstrução. Ao voltar para a Vila Belmiro, buscava reencontrar ambiente, carinho e identidade para tentar recuperar a confiança e o ritmo competitivo.
Entre lesões, críticas e polêmicas extracampo, a trajetória recente foi turbulenta. Houve mais tempo afastado do que atuando regularmente. Ainda assim, o talento jamais deixou de ser reconhecido. Para Ancelotti, vale a aposta. Para Neymar, vale a última tentativa.
A Copa de 2026 pode representar muito mais do que apenas mais uma participação em Mundial. Pode ser o encerramento definitivo de uma trajetória marcada por extremos: genialidade e dor, idolatria e cobrança, brilho e frustração. Neymar chega não apenas para disputar partidas, mas para tentar mudar a própria narrativa dentro da história das Copas.
Depois de tantos capítulos interrompidos, o camisa 10 buscará finalmente um sorriso completo. Um sorriso do tamanho do mundo.