De uma possível candidatura ao Senado à suplência de deputado federal, o ex-prefeito de Petrolina termina o ano diante de uma lição que vai além das urnas: humildade, respeito às pequenas bases e reconhecimento de quem luta por um projeto político longe dos grandes palanques.
Tem ano que um político gostaria de apagar da memória. Para Miguel Coelho, 2026 tem todos os ingredientes para entrar nessa lista. Mas, antes de virar a página, o ex-prefeito de Petrolina precisa entender o que aconteceu, rever conceitos e, principalmente, olhar para aqueles que muitas vezes ficam esquecidos quando os grandes grupos se movimentam.
Miguel não é uma má pessoa, tampouco precisa ser tratado como um mau político. Tem experiência administrativa, conhece os caminhos da política pernambucana e governou Petrolina por dois mandatos. Construiu uma liderança importante no Sertão e chegou a ser apontado como possível candidato ao Senado. O problema é que a política não vive apenas de passado, sobrenome, estrutura e ambição. Vive também de escolhas, capacidade de articulação e respeito a quem ajuda a construir uma trajetória.
E foi justamente nesse terreno que 2026 deixou perguntas incômodas.
Miguel disputou uma vaga de deputado federal pelo União Brasil, recebeu 102.595 votos e terminou como primeiro suplente da federação União Progressista. Faltaram 8.014 votos para alcançar a última vaga conquistada pela federação. Um resultado expressivo em números absolutos, mas insuficiente para garantir o mandato.
Para quem chegou a sonhar com uma disputa pelo Senado, a mudança de cenário foi considerável. A questão agora não é apenas lamentar o resultado. É compreender por que um projeto que parecia ter ambições maiores terminou sem conquistar a cadeira pretendida.
A SOBERBA PODE CUSTAR CARO, MAS A HUMILDADE PODE ENSINAR O CAMINHO DE VOLTA
Na política, existe uma armadilha perigosa: começar a acreditar que a força de um grupo é suficiente para garantir resultados. Quando isso acontece, corre-se o risco de dar atenção excessiva aos grandes centros, aos eventos cheios, às lideranças de maior visibilidade e aos aliados que ocupam os espaços mais importantes.
Enquanto isso, gente que trabalha silenciosamente, que abre portas em cidades pequenas, que reúne meia dúzia de apoiadores e que passa meses defendendo um nome acaba ficando em segundo plano.
É aí que mora uma das grandes lições para Miguel Coelho.
Não se trata de afirmar que ele deliberadamente desprezou alguém. Trata-se de reconhecer que qualquer liderança que pretende crescer precisa avaliar se está distribuindo atenção, respeito e capacidade de diálogo de maneira adequada. A derrota é uma oportunidade para essa reflexão, não uma prova automática de que todas as críticas são verdadeiras.
O político precisa entender que uma pequena cidade não é menos importante porque tem menos eleitores. E uma liderança não merece menos respeito porque não consegue reunir uma multidão.
Em Pernambuco, há municípios onde a política é feita no corpo a corpo, na conversa de calçada, na visita à zona rural e no compromisso assumido olho no olho. Não há grandes estruturas, equipes numerosas ou eventos monumentais. Há pessoas que acreditam em determinado projeto e trabalham com os recursos que possuem.
Essas pessoas também enfrentam críticas, colocam a própria reputação em jogo e precisam explicar aos vizinhos por que estão apoiando determinado candidato. Quando chega o dia da eleição, fazem sua parte e esperam, no mínimo, que seu esforço seja reconhecido.
Não é razoável que um grupo político só se lembre dessas bases quando precisa dos votos.
O VOTO DO RECANTO MAIS DISTANTE DE PERNAMBUCO VALE EXATAMENTE O MESMO QUE O VOTO DOS GRANDES CENTROS.
A urna não sabe se o eleitor mora numa avenida movimentada de Petrolina, numa comunidade rural do Agreste ou num pequeno distrito do Sertão. Não existe voto de primeira classe e voto de segunda classe. Não existe eleitor importante porque vive numa cidade grande e eleitor secundário porque mora num município pequeno.
O peso eleitoral pode variar conforme a quantidade de votos de cada localidade, mas o valor democrático de cada voto é igual.
Essa diferença precisa estar muito clara para quem deseja construir uma trajetória política duradoura. Uma pequena base pode não decidir sozinha uma eleição, mas pode representar o início de uma rede de confiança. Um grupo reduzido pode não aparecer nas fotografias dos grandes encontros, mas pode permanecer fiel quando outros já estão procurando novos caminhos.
E existe uma crueldade política que muitos só percebem tarde demais: o aliado que hoje parece pequeno pode ser justamente aquele cuja ausência fará falta amanhã.
NÃO SE MENOSPREZAM PEQUENAS BASES. NÃO SE DIMINUI O ESFORÇO DE PEQUENOS GRUPOS. NÃO SE TRATA COMO DESCARTÁVEL QUEM SAIU DE CASA PARA DEFENDER UM PROJETO.
Se 2026 deixou uma lição para Miguel, ela passa necessariamente por aí. É hora de baixar a bola, ouvir mais e compreender que liderança não é apenas ocupar o centro do palco. É saber reconhecer quem ajudou a montar a estrutura, quem carregou o projeto nas costas e quem permaneceu trabalhando mesmo sem receber os holofotes.
A APOSTA PRESIDENCIAL TAMBÉM ENTROU NA CONTA
O ano ainda reservou outro capítulo. No segundo turno presidencial, Miguel declarou apoio a Flávio Bolsonaro, seguindo o posicionamento adotado pelo União Brasil e por integrantes de seu grupo político. A decisão foi justificada publicamente pela defesa de mudanças no país, com ênfase em segurança pública, emprego e responsabilidade fiscal.
Flávio perdeu a disputa para Luiz Inácio Lula da Silva, e o cenário nacional passou a exigir dos grupos políticos uma nova leitura. Miguel, na segunda-feira, 26 de outubro, reconheceu a vitória de Lula, parabenizou o presidente eleito e defendeu a continuidade do trabalho por mais recursos, obras e qualidade de vida para Petrolina e Pernambuco.
É legítimo escolher um lado numa eleição presidencial e também é legítimo reconhecer o resultado das urnas. O desafio está em construir uma relação institucional produtiva depois da disputa. Petrolina precisa continuar buscando investimentos, e a população não pode ser prejudicada por dificuldades de diálogo entre grupos políticos.
Miguel terá de demonstrar capacidade de articulação, sem confundir firmeza com isolamento. A política exige posições, mas exige também diálogo. E diálogo não deve ser confundido com oportunismo: trata-se de reconhecer que governos, partidos e lideranças precisam conviver em favor de interesses públicos.
Ainda assim, a derrota presidencial não explica sozinha o resultado de Miguel para deputado federal. São disputas diferentes, com eleitorados e dinâmicas próprias. O que existe é um conjunto de acontecimentos que torna necessária uma revisão mais ampla de estratégia.
2027 PRECISA SER O ANO DA REVISÃO, NÃO DA ARROGÂNCIA
Miguel Coelho não perdeu sua história. Também não deixou de ter uma base importante em Petrolina. Seus 102.595 votos demonstram que continua existindo um contingente expressivo de eleitores dispostos a apoiar seu projeto. Mas a suplência mostra que essa votação não foi suficiente para assegurar o mandato pretendido.
O desafio é transformar esse revés em aprendizado. Isso significa avaliar a campanha, rever a relação com lideranças municipais, ouvir quem ficou distante e reconhecer que a política não pode ser conduzida apenas a partir das cidades onde o grupo possui maior força.
Significa também abandonar qualquer impressão de que pequenos aliados devem se contentar com pouco porque representam menos votos. Quem trabalha por uma candidatura merece consideração, independentemente do tamanho da sua cidade ou da influência que exerce nos bastidores.
Humildade não é fraqueza. Não diminui ninguém reconhecer que poderia ter feito diferente. Pelo contrário: a capacidade de ouvir críticas, corrigir comportamentos e valorizar pessoas é uma das características que distinguem uma liderança passageira de uma trajetória que consegue se renovar.
Miguel tem tempo para fazer essa reflexão. Não precisa abandonar suas ambições, tampouco renegar o trabalho que realizou em Petrolina. Precisa compreender que nenhuma liderança é autossuficiente e que o capital político não se resume a votos concentrados em um grande município.
A política pernambucana é feita de cidades grandes e pequenas, de grupos numerosos e reduzidos, de lideranças conhecidas e de pessoas que raramente aparecem na imprensa. Todas fazem parte do processo. Ignorar essa diversidade é correr o risco de enxergar apenas uma parcela da realidade.
A LIÇÃO FINAL: NINGUÉM É GRANDE DEMAIS PARA NÃO PRECISAR DOS PEQUENOS
Talvez Miguel Coelho prefira esquecer 2026. É compreensível. O ano não entregou o resultado que seu projeto político parecia buscar. Mas esquecer sem aprender seria desperdiçar a oportunidade de corrigir a rota.
O ex-prefeito precisa olhar para trás sem procurar culpados em cada esquina. Precisa perguntar se ouviu o suficiente, se valorizou as pessoas certas, se deu atenção às bases que trabalharam longe dos grandes eventos e se compreendeu que respeito não pode ser medido pela quantidade de votos que alguém consegue reunir.
Não é uma sentença contra Miguel. É uma reflexão sobre a política e sobre o que se espera de quem deseja continuar crescendo.
Porque o eleitor que sai de casa numa cidade pequena tem o mesmo direito de ser respeitado que aquele que vota numa grande capital. A liderança que reúne dez pessoas merece ser ouvida com a mesma seriedade com que se escuta quem reúne centenas. E o grupo que se esforçou por uma candidatura não pode ser tratado como se sua contribuição tivesse importância apenas no período eleitoral.
Na política, a soberba pode afastar pessoas que levaram anos para construir confiança. A humildade, por outro lado, abre espaço para recuperar relações e reconstruir pontes.
Miguel Coelho não precisa deixar de ser quem é. Precisa, talvez, rever a maneira como se relaciona com quem caminha ao seu lado. Precisa baixar a bola, olhar para os pequenos municípios com mais atenção e compreender que cada voto carrega uma história, um esforço e uma expectativa.
2026 pode ser o ano que Miguel gostaria de esquecer. Mas a lição que as urnas deixaram é simples: quem sonha em ser grande não pode tratar os pequenos como se não fossem importantes.
Porque, quando chega a hora de contar os votos, a urna não pergunta o tamanho da cidade, o poder da liderança ou a influência do grupo. Ela conta cada voto. E todos têm o mesmo valor.
Edney Souto | Blog do Edney