O uso de aeronaves oficiais do governo de Minas Gerais pelo governador Romeu Zema (Novo) para compromissos de pré-campanha presidencial vem levantando questionamentos sobre a fronteira entre o exercício do cargo público e a promoção de um projeto político pessoal. Levantamento feito a partir de dados do portal da transparência e registros de voos mostra que, desde que se lançou como pré-candidato ao Palácio do Planalto, Zema intensificou viagens fora do estado, quase sempre utilizando aviões custeados pelos cofres públicos, em um movimento que culminou em um gasto recorde com combustível de aviação.
O episódio mais emblemático ocorreu no dia 30 de outubro. Naquela data, Zema deixou mais cedo uma reunião no Rio de Janeiro, convocada pelo governador Cláudio Castro (PL), alegando solidariedade diante de uma megaoperação policial que havia deixado 122 mortos no dia anterior. Poucas horas depois, porém, o governador mineiro embarcou em uma aeronave oficial rumo a Campinas, no interior de São Paulo, para participar de um encontro do Partido Novo voltado à apresentação de pré-candidaturas para as eleições de 2026. No evento, Zema foi tratado como presidenciável, discursou, posou para fotos e teve sua presença amplamente divulgada nas redes sociais do partido.
Registros do FlightRadar indicam que o avião oficial pousou em Campinas pouco antes das 22h. Esse foi, inclusive, o único compromisso público de Zema na cidade naquela noite. Na manhã seguinte, às 7h40, a aeronave retornou a Belo Horizonte, novamente com o governador a bordo. Todo o deslocamento foi custeado pelo governo de Minas.
A viagem chama ainda mais atenção pelo contexto. No mesmo dia, Zema havia anunciado presença em um evento institucional, o “1º Encontro de Revendedores de Combustíveis do Interior Paulista”, onde participaria de uma mesa de autoridades. Impedido de comparecer presencialmente por conta da reunião no Rio, o governador enviou um vídeo para a abertura do seminário. Ainda assim, manteve o uso do avião oficial para, à noite, cumprir uma agenda estritamente partidária, sem relação direta com suas atribuições como chefe do Executivo mineiro.
Procurado, o governo de Minas afirmou que Zema teria se reunido presencialmente com representantes do evento Conexão Revenda às 22h, exatamente no mesmo horário em que ele participava do encontro do Novo. Diante do conflito de horários, a gestão limitou-se a dizer que “a agenda do governador é dinâmica” e não apresentou registros que comprovassem a suposta reunião institucional.
Em nota, o governo sustentou que um decreto estadual de 2005 autoriza o uso da aeronave pelo governador “em deslocamento de qualquer natureza, por questões de segurança”, e afirmou ainda que, fora do expediente, agentes públicos podem cumprir compromissos pessoais “sem ônus para o Estado”. O argumento, porém, entra em choque com o fato de que o custo do voo foi integralmente arcado pelos cofres públicos.
O caso não é isolado. Desde agosto, quando anunciou oficialmente sua pré-candidatura à Presidência da República, Zema tem percorrido o país em uma espécie de roteiro político. Passou por capitais e cidades estratégicas do Sul, Centro-Oeste e Nordeste, participando de eventos do Novo, encontros com lideranças locais e articulações políticas. Em praticamente todas essas viagens, utilizou aeronaves oficiais. A única exceção foi uma ida a São Luís, no Maranhão.
São Paulo tornou-se um destino recorrente. Apenas nos últimos quatro meses, Zema esteve no estado em 15 ocasiões. Foi na capital paulista que ele lançou sua pré-candidatura e onde se reuniu diversas vezes com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), com quem discute cenários eleitorais para 2026. O interior paulista também entrou no radar, com participações em eventos como a Festa do Peão de Barretos, um festival de moda em Itu e compromissos sociais, como um jantar com empresários em Ribeirão Preto e até um reencontro com colegas do Ensino Médio.
Os reflexos financeiros dessa intensa agenda aérea aparecem de forma clara nos números. Em 2025, o governo de Minas liquidou quase R$ 1,5 milhão apenas com combustível de aviação do gabinete do governador, o maior valor registrado durante a gestão Zema. O montante supera inclusive o gasto de 2022, ano eleitoral, quando foram desembolsados R$ 1,4 milhão. Em comparação, em 2024 o custo foi de R$ 1 milhão e, em 2023, de R$ 630 mil.
A fornecedora do combustível em 2025 foi a Rede Sol Fuel Distribuidora, empresa de Ribeirão Preto que chegou a ser alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto. A companhia nega qualquer envolvimento em irregularidades.
Questionado sobre o aumento expressivo das despesas, o governo de Minas afirmou que houve redução de 19,2% no custo médio da hora voada em 2025, alegando eficiência e economia. O dado, no entanto, não apaga o crescimento global dos gastos nem responde ao principal ponto da controvérsia: o uso reiterado de um bem público para viabilizar compromissos de pré-campanha presidencial.
Enquanto Zema percorre o país em busca de alianças e visibilidade nacional, cresce o debate sobre até que ponto o avião oficial do governo de Minas tem sido utilizado como instrumento de Estado ou como atalho político para um projeto pessoal rumo ao Planalto.