terça-feira, 6 de janeiro de 2026

ACORDO NOS BASTIDORES: DELCY RODRÍGUEZ SURGE COMO PEÇA-CHAVE NA NOVA FASE DA VENEZUELA SOB PRESSÃO DOS EUA

Por trás das declarações públicas duras, das ameaças retóricas e do jogo de cena diplomático, uma engrenagem silenciosa parece ter operado nos bastidores da mais recente crise venezuelana. A fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último sábado (3), ao afirmar que os americanos permanecerão na Venezuela e “essencialmente comandarão o país” até que haja uma transição política, expôs muito mais do que aparenta à primeira vista. Segundo análises de professores universitários e especialistas em política internacional, a frase sinaliza um entendimento já em curso — e o nome central desse arranjo seria o da vice-presidente Delcy Rodríguez.

Embora Trump tenha declarado publicamente que Delcy poderia “pagar um preço muito alto” caso não fizesse “o que é certo”, e apesar de a própria vice-presidente ter reafirmado em diversas ocasiões que Nicolás Maduro seria o “único presidente legítimo” do país, a leitura predominante entre analistas é de que o discurso público não corresponde à prática privada. Tudo indica que há um alinhamento tático em andamento.

Nos últimos meses, Delcy Rodríguez teria mantido conversas discretas com interlocutores ligados ao governo americano. Diferentemente de outras lideranças da oposição, especialmente Maria Corina Machado, Delcy teria transmitido maior previsibilidade, segurança institucional e capacidade de condução do Estado. Para Washington, que busca estabilidade e controle de danos, esses atributos pesaram mais do que o discurso ideológico.

A estratégia de Trump, segundo analistas internacionais, não seria desmontar o regime chavista implantado desde 1999 por Hugo Chávez. O objetivo seria outro: substituir o atual chefe de governo por um interlocutor mais eficiente, menos errático e intelectualmente mais preparado do que Nicolás Maduro, cuja gestão, desde 2013, teria aprofundado a fragmentação do poder ao ceder espaço excessivo a militares corruptos e estruturas paralelas de controle.

Nesse contexto, Delcy Rodríguez aparece como a alternativa viável dentro do próprio sistema. Com trajetória consolidada no chavismo, ela reúne características que agradam a setores internos e externos. Filha de um histórico guerrilheiro marxista que ganhou notoriedade ao participar do sequestro de um empresário americano, Delcy carrega o DNA político da revolução bolivariana. Ao mesmo tempo, teve formação acadêmica fora da Venezuela, com passagem pela França, onde se especializou em direito trabalhista, adquirindo um perfil técnico que a diferencia de figuras mais rústicas do regime.

Sua ascensão foi gradual, porém consistente. Ganhou espaço nos governos chavistas, ocupou cargos estratégicos e, ao longo dos anos, construiu uma imagem de operadora política habilidosa, capaz de dialogar tanto com alas ideológicas quanto com setores pragmáticos do poder. Essa combinação teria sido decisiva para que se tornasse, aos olhos dos Estados Unidos, uma peça mais confiável para conduzir uma transição controlada.

Assim, a permanência americana na Venezuela, longe de representar uma ruptura total, pode significar apenas uma reorganização do comando político, mantendo a espinha dorsal do regime, mas com uma nova face à frente. Nesse tabuleiro complexo, Delcy Rodríguez desponta não como antagonista do processo, mas como possível fiadora de um novo equilíbrio de forças — costurado longe dos holofotes, mas com impacto direto no futuro do país.

Nenhum comentário: