Waldemar Oliveira, Sebastião Oliveira, Marília Arraes e Josafá Almeida terão interesses para administrar dentro de uma mesma estrutura partidária. Possível chegada do PSB, de João Campos, aumenta a complexidade das negociações e pode colocar aliados de Raquel Lyra e adversários políticos no mesmo agrupamento.
Por Edney Souto | Coluna Na Lupa
A política pernambucana está diante de uma movimentação que promete render muitos capítulos nos bastidores. A decisão da Executiva Nacional do PDT de aprovar a entrada do partido na federação formada por Solidariedade, PRD e Avante abriu uma nova discussão sobre o futuro das forças partidárias no estado. E a pergunta que começa a circular entre as lideranças é bastante objetiva: quem vai mandar nesse novo agrupamento em Pernambuco?
A decisão foi tomada nesta sexta-feira (6), em reunião híbrida da Executiva Nacional do PDT. Além de aprovar o ingresso na federação, o colegiado também manifestou posição favorável à possível inclusão do PSB. A ampliação, entretanto, ainda depende de decisões partidárias e dos procedimentos necessários junto ao Tribunal Superior Eleitoral.
O que parece uma simples reorganização partidária em Brasília pode se transformar em uma verdadeira negociação de forças em Pernambuco. Afinal, os partidos envolvidos possuem lideranças com projetos próprios, relações políticas diferentes e compromissos construídos em lados distintos da disputa estadual.
De um lado, está o grupo do Avante, comandado em Pernambuco pelos irmãos Sebastião Oliveira e Waldemar Oliveira, que caminharam com a governadora Raquel Lyra. Do outro, aparece Marília Arraes, agora no PDT, com sua trajetória política e sua relação com a Frente Popular. Na composição também está Josafá Almeida, liderança ligada ao PRD, que construiu seu próprio espaço no cenário estadual.
E, como se não bastasse, existe a possibilidade de chegada do PSB de João Campos.
É aí que a conversa fica ainda mais interessante.
WALDEMAR OLIVEIRA: O AVANTE QUER PRESERVAR SEU ESPAÇO
O deputado federal Waldemar Oliveira é um dos nomes que aparecem nas discussões sobre o comando estadual da nova federação. Ao lado do irmão Sebastião Oliveira, presidente estadual do Avante, ele representa uma força política que possui presença no Congresso Nacional e articulação consolidada em Pernambuco.
O Avante participou do projeto de reeleição de Raquel Lyra em 2026, mantendo uma relação política com o Palácio do Campo das Princesas. Essa posição tem importância na hora de discutir o futuro da federação, especialmente porque o PSB de João Campos está em outro campo político.
Informações divulgadas pelo Blog do Elielson apontaram Waldemar como nome cotado para assumir a presidência estadual da federação, caso a composição permaneça restrita às quatro legendas.
Entretanto, a possibilidade de entrada do PSB provocou reação. Waldemar manifestou resistência à ampliação e chegou a sinalizar que poderia deixar o agrupamento caso os socialistas fossem incorporados. O argumento apresentado foi a incompatibilidade política entre o apoio do Avante a Raquel Lyra e a presença do PSB na mesma estrutura.
A declaração revela que o problema não é apenas administrativo. O que está em discussão é quem terá condições de conduzir as decisões políticas de um bloco que poderá reunir grupos adversários em Pernambuco.
Sebastião Oliveira também terá papel importante nessa negociação. Como dirigente estadual do Avante e liderança com histórico de atuação no interior, não é razoável imaginar que o partido abrirá mão de sua participação sem discutir o peso que terá na futura direção.
MARÍLIA ARRAES: UMA SENADORA COM PROJETO E AUTONOMIA
Marília Arraes chega à nova configuração partidária com capital político próprio. Eleita senadora por Pernambuco em outubro de 2026, ela tem uma trajetória que passa pela Câmara Federal, pela Câmara Municipal do Recife e pela disputa pelo Governo do Estado em 2022.
Neta do ex-governador Miguel Arraes, Marília construiu uma identidade política própria e mantém influência entre setores da oposição pernambucana.
Antes de assumir o comando estadual do PDT, teve passagem pelo Solidariedade, legenda que integra a federação desde sua formação com o PRD. Sua movimentação partidária, portanto, não é um detalhe secundário nessa história.
Marília esteve na chapa de João Campos na eleição de 2026 e foi eleita para o Senado. Apesar dessa proximidade, a discussão sobre a federação envolve também a preservação de sua autonomia e de sua capacidade de decisão.
Informações publicadas pelo Diário de Pernambuco apontaram resistência de Marília e do ministro Wolney Queiroz à entrada do PSB na composição, justamente pelas preocupações relacionadas ao protagonismo e ao controle político da estrutura estadual.
A pergunta que fica é como Marília pretende se posicionar diante de uma federação que reúne partidos com interesses tão diferentes. Ela aceitará uma direção estadual conduzida pelo grupo do Avante? Vai reivindicar espaço proporcional à sua força política? Ou buscará uma solução que preserve a autonomia do PDT?
São questões que ainda precisam de respostas.
JOSAFÁ ALMEIDA: O PRD TAMBÉM TEM PROJETO PRÓPRIO
Outro nome que não pode ficar de fora dessa equação é Josafá Almeida, prefeito de São Caetano e liderança ligada ao PRD em Pernambuco.
É importante lembrar que o PRD já possui uma trajetória de articulação conjunta com o Solidariedade. A federação entre as duas legendas foi construída anteriormente, mas isso não significa que suas lideranças estaduais tenham abandonado suas identidades e interesses políticos.
Josafá tem defendido a preservação do espaço do PRD nas decisões estaduais. Sua atuação demonstra que a legenda não pretende ser apenas uma sigla coadjuvante em uma estrutura comandada por outros dirigentes.
Em agosto de 2026, o prefeito declarou apoio à candidatura de Marília Arraes ao Senado, aproximando seu grupo político da articulação que tinha João Campos como referência no campo estadual.
Essa relação é um ingrediente importante da nova composição. Josafá tem ligação política com Marília, mas representa uma legenda que possui seus próprios interesses e precisa negociar sua participação no comando da federação.
Também não se pode esquecer que o PRD passou por mudanças de posicionamento em relação ao governo estadual, aproximando-se do campo político de João Campos.
Com a entrada do PDT, o prefeito terá de administrar uma nova realidade partidária. E, se o PSB também ingressar, a disputa por espaço poderá ficar ainda mais complexa.
SE JOÃO CAMPOS ENTRAR, O JOGO MUDA DE DIMENSÃO
A possibilidade de inclusão do PSB é, sem dúvida, um dos pontos mais delicados dessa negociação.
O PDT já manifestou indicativo favorável à entrada dos socialistas, mas a decisão definitiva ainda depende da instância nacional do PSB. A discussão está prevista para avançar a partir de 12 de novembro.
A eventual chegada do partido de João Campos mudaria o peso político da federação. Informações divulgadas durante as articulações apontaram que o bloco ampliado poderia reunir 33 deputados federais e cinco senadores.
Seria uma estrutura parlamentar expressiva, com capacidade de ampliar a presença das legendas no Congresso e fortalecer sua participação nas negociações nacionais.
Mas Pernambuco apresenta uma particularidade: João Campos e Raquel Lyra estiveram em campos opostos na disputa pelo Governo do Estado em 2026.
O Avante participou do projeto político da governadora. O PSB tem João Campos como sua principal liderança estadual. Marília Arraes, por sua vez, foi eleita senadora na chapa socialista, mas mantém interesses partidários próprios.
Como acomodar todos esses personagens?
Waldemar Oliveira já demonstrou resistência à entrada do PSB. Marília também apresentou ressalvas à ampliação. Sebastião terá de considerar os compromissos políticos do Avante. Josafá, por sua vez, buscará preservar o espaço do PRD.
A chegada dos socialistas não seria apenas uma ampliação numérica. Representaria uma mudança na correlação interna de forças e exigiria uma negociação muito mais abrangente.
A CLÁUSULA DE BARREIRA ESTÁ POR TRÁS DE TUDO
A movimentação também precisa ser entendida pelo aspecto eleitoral.
O PDT não atingiu a cláusula de desempenho nas eleições de 2026. Essa regra estabelece um patamar mínimo de votação ou representação parlamentar para que os partidos tenham acesso aos recursos do Fundo Partidário e ao tempo gratuito de propaganda no rádio e na televisão.
A federação surge como uma alternativa para fortalecer as legendas e permitir que atuem conjuntamente, preservando suas identidades partidárias dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral.
O objetivo declarado pelo PDT é ampliar a força parlamentar e garantir melhores condições de funcionamento político.
O presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, defendeu a iniciativa e afirmou que a união poderá fortalecer os partidos na defesa da democracia e dos direitos da população.
Mas a realidade estadual mostra que a conta não termina em Brasília. Para funcionar, uma federação precisa construir unidade política durante todo o período legal de duração. Isso significa compartilhar decisões, estratégias eleitorais e compromissos partidários.
Não basta juntar siglas no papel. É preciso administrar interesses.
O QUE ESTÁ EM JOGO PARA 2028 E 2030?
A discussão sobre o comando estadual tem consequências que ultrapassam o momento atual.
As eleições municipais de 2028 estarão no horizonte, assim como a próxima disputa pelo Governo de Pernambuco, em 2030.
Quem controlar a direção estadual terá influência nas decisões sobre candidaturas, alianças municipais, formação de chapas proporcionais e posicionamentos políticos.
Imagine, por exemplo, uma federação que tenha de decidir entre apoiar um candidato ligado ao grupo de Raquel Lyra ou uma candidatura vinculada ao projeto de João Campos em determinado município.
Como ficará essa decisão se os dois grupos estiverem representados dentro da mesma estrutura?
E se o PSB e o Avante tiverem posições diferentes sobre uma candidatura majoritária? Qual será o peso do PDT? O PRD terá autonomia para defender seus aliados locais?
São questões que precisam ser resolvidas antes que as disputas eleitorais transformem divergências administrativas em conflitos políticos.
TRÊS CAMINHOS ESTÃO COLOCADOS
O primeiro cenário é a federação permanecer formada por PDT, Avante, Solidariedade e PRD, sem a entrada do PSB. Nesse desenho, Waldemar Oliveira aparece como um dos nomes cotados para a presidência estadual, enquanto Marília, Sebastião e Josafá terão de negociar a participação de suas respectivas legendas.
O segundo cenário é a entrada do PSB. Nesse caso, João Campos passaria a integrar diretamente a equação estadual, com o peso político e parlamentar de seu partido. A resistência manifestada por Waldemar e Marília indica que essa possibilidade exigiria uma negociação especialmente delicada.
O terceiro caminho seria a construção de um acordo de convivência, com divisão de responsabilidades, espaços e mecanismos de decisão. Uma direção compartilhada poderia ser uma alternativa para evitar que as diferenças políticas inviabilizem o funcionamento do agrupamento.
Nenhum desses cenários está oficialmente definido. São possibilidades que dependem das decisões nacionais e das negociações estaduais.
NA LUPA: UM CONDOMÍNIO COM MUITOS DONOS E INTERESSES DIFERENTES
A federação pode nascer forte em números, mas terá de provar que consegue funcionar politicamente em Pernambuco.
Waldemar Oliveira quer preservar o espaço do Avante e sua relação com Raquel Lyra. Sebastião Oliveira tem uma estrutura partidária para defender. Marília Arraes chega com mandato de senadora e pretende manter sua autonomia. Josafá Almeida representa um PRD que também reivindica participação nas decisões. E João Campos pode entrar na história com o PSB, ampliando ainda mais o número de interesses envolvidos.
A questão é que uma federação não funciona como uma aliança provisória, montada apenas para uma eleição. Ela exige convivência, compromissos e decisões conjuntas.
Pernambuco poderá ter, dentro da mesma estrutura partidária, lideranças que apoiaram projetos diferentes na última disputa estadual. Isso não é impossível, mas exige regras claras e disposição para negociar.
No fim das contas, a pergunta que vale milhões nos bastidores é uma só: quem terá a caneta para decidir os rumos desse novo condomínio político?
Porque uma coisa é certa: em Brasília, os partidos podem assinar o acordo. Em Pernambuco, quem conhece o jogo sabe que o verdadeiro desafio começa na hora de dividir o comando.
E essa história ainda promete muitos capítulos.
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