Pelo rito das duas casas legislativas, a primeira sessão do ano é marcada por discursos institucionais e mensagens políticas. Os presidentes da Alepe e da Câmara fazem a abertura formal, passam a palavra ao representante do Executivo e, na sequência, falam os líderes da oposição e do governo. Não há votações, mas o momento serve como termômetro da relação entre os poderes e como palco para recados públicos que costumam ditar o tom dos meses seguintes. A ausência dos chefes do Executivo, portanto, não passa despercebida.
As assessorias de Raquel Lyra e João Campos informaram no domingo que ambos têm outros compromissos considerados prioritários e que, por isso, a presença não estava garantida. No caso do prefeito do Recife, a ausência já era tratada nos bastidores como provável. Em segundo mandato, João Campos não carrega a mesma necessidade de afirmação institucional de um início de gestão. Já no caso da governadora, o gesto chama mais atenção. Desde que assumiu o Palácio do Campo das Princesas, Raquel nunca havia deixado de comparecer às aberturas do ano legislativo, mesmo quando o ambiente foi hostil.
Nos dois anos anteriores, a governadora ouviu críticas duras durante essas solenidades, especialmente do presidente da Alepe, deputado Álvaro Porto, e do líder da oposição, deputado Diogo Moraes. Ainda assim, manteve a tradição de comparecer e defender, pessoalmente, as prioridades do governo. Desta vez, a ausência ocorre justamente em um momento em que o Executivo estadual enfrenta dificuldades para ver sua pauta avançar na Assembleia.
Raquel Lyra tem pressionado publicamente os deputados para que projetos enviados pelo governo e que não foram votados até dezembro — nem mesmo durante o período extraordinário convocado pela própria governadora — finalmente entrem na pauta. Entre as matérias pendentes estão temas sensíveis e estratégicos para o funcionamento do Estado. Um deles é a Lei Orçamentária Anual, cuja demora na aprovação pode gerar sérios entraves administrativos, já que a execução financeira dos poderes fica comprometida sem a definição do orçamento. Outro ponto delicado é a autorização para contratação de empréstimos junto ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal, operação que o governo considera essencial para refinanciar a dívida estadual e reorganizar o fôlego fiscal.
Enquanto isso, no Recife, o cenário legislativo é bem mais confortável para João Campos. O prefeito tem conseguido aprovar, até aqui, todos os projetos que envia à Câmara Municipal, mantendo uma base sólida e articulada. Ainda assim, a abertura do ano legislativo também ocorre sob um novo elemento de pressão: um pedido de impeachment protocolado durante o recesso parlamentar.
Tanto na Câmara do Recife quanto na Alepe, o retorno dos trabalhos será acompanhado da análise inicial de pedidos de afastamento dos chefes do Executivo. No caso do prefeito, o autor é o vereador Eduardo Moura, do Novo. Ele acusa João Campos de ter cometido crime de responsabilidade ao nomear para a Procuradoria do Município um candidato que havia ficado em 63º lugar em um concurso público. Segundo o vereador, dois anos após o certame, o candidato alegou ser autista e acabou assumindo a vaga que, na visão do parlamentar, deveria ter sido destinada a um candidato com deficiência física que aguardava nomeação.
Já na Assembleia, o pedido de impeachment contra Raquel Lyra foi apresentado pelo deputado Romero Albuquerque, do União Brasil. O parlamentar sustenta que a governadora teria sido omissa na fiscalização de uma empresa de transporte coletivo pertencente ao pai dela. A acusação mira possível conflito de interesses e falha na atuação do Estado sobre o serviço prestado à população.
Embora pedidos de impeachment nem sempre avancem e dependam de uma série de etapas formais antes mesmo de serem admitidos, o simples protocolo já adiciona temperatura ao ambiente político. Em um ano de disputas municipais e rearranjos de forças para 2026, cada movimento ganha leitura eleitoral.
A ausência de Raquel Lyra e João Campos nas cerimônias que simbolizam a retomada oficial do debate legislativo acaba, assim, ultrapassando o campo da agenda administrativa. Vira sinal político. Em vez de discursos presenciais tentando estabelecer pontes, o que se verá é um início de ano marcado por distanciamento, recados indiretos e um Legislativo que se prepara para ocupar, ainda mais, o centro das tensões entre governo e oposição.